Um «Velho do Restelo», no Público

Na edição de hoje (Nº 7951) do jornal Público, e na página 54, está o meu artigo «“Velho do Restelo”, e com muito orgulho!». Um excerto: «Ao contrário de “acordos” e de “reformas” na ortografia anteriores, o AO90 assenta numa alteração radical: já não se trata de substituir (o “ph” pelo “f”, o “y” pelo “i”) ou de simplificar (deixar de haver consoantes repetidas) mas sim de cortar, eliminar, letras e acentos que são necessários, que têm funções concretas. É uma “mudança revolucionária” através de uma “ditadura de uma (muito pequena) minoria”.» Transcrição integral aqui.

Octávio dos Santos

Pelo 1º de Dezembro

Já assinei a petição «Para a manutenção do feriado oficial do 1º de Dezembro evocativo da restauração da independência de Portugal», promovida pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Quem quiser fazer o mesmo deve ir aqui. Para que os portugueses não percam aquela que é uma das duas datas mais festivas do último mês do ano. Porque ainda temos o Natal… por enquanto.

Octávio dos Santos

Artigos contra o Acordo Ortográfico

«O reino da insensatez» e «Caros Senhores da “Troika”», Vasco Graça Moura; «Visita guiada ao reino da falácia», Fernando Venâncio; «Uma língua deve ter falantes; o “acordês” não tem falantes» e «O que importa, agora, é rejeitá-lo de vez», Rui Valente; «Adeque o seu vocabulário», José Diogo Quintela; «Contra o corte cego da consoante muda», Ricardo Araújo Pereira; «Ainda o Acordo Ortográfico», Luís M. R. de Sequeira; «Já falou acordês hoje?», «São mudas mas “falam”», «Nem Saramago escapa» e «Taprobana, meu», Nuno Pacheco; «Os bicos-de-papagaio do Acordo Ortográfico» e «A anunciada revisão do Acordo Ortográfico», Francisco Miguel Valada; «Nós, o acordo ortográfico e os nossos filhos», Ana Lima; «O Acordo Rodoviário Europeu», António Emiliano; «Que gente é esta? Manifesto contra a mentira de Estado» e «O estado da choldra ortográfica em Portugal», João Roque Dias.

Livros para o Natal…

… E não só, porque podem e devem ser adquiridos e oferecidos durante todo o ano, são os que agora recomendo, da autoria recente de amigos e de conhecidos: «Cristianismo Iniciático» e «O Sangue e o Fogo», António de Macedo; «Batalha», «É de Noite que Faço as Perguntas» (com André Coelho, Daniel Silva, João Maio Pinto, Jorge Coelho e Richard Câmara) e «O Pequeno Deus Cego» (com Pedro Serpa), David Soares; «O Espião Alemão em Goa» e «Levante-se o Véu! – Reflexões sobre o Exercício da Justiça em Portugal» (com Álvaro Laborinho Lúcio e José Braz), José António Barreiros; «Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa – Os Melhores Contos do Século XX», (organização de) Luís Filipe Silva; «Vencer ou Morrer», Mendo Castro Henriques; «A Guerra dos Mascates», «Introdução à Cultura Portuguesa» e «O Pensamento Português Contemporâneo 1890-2010», Miguel Real; «A Via Lusófona» e «Fernando Nobre – Diário de uma Campanha», Renato Epifânio.

Octávio dos Santos

Entrevista ao «E:2»

Está já disponível a entrevista que concedi ao programa televisivo «E:2», da RTP2, no seu canal próprio do YouTube. Transmitida originalmente no passado dia 25 de Outubro, teve como pretexto e tema principal o meu livro «Espíritos das Luzes», mas serviu também para uma reflexão sobre a História de Portugal; está dividida em quatro partes, pelo que se deve ver a emissão até ao fim. Agradeço, mais uma vez, à equipa de estudantes da Escola Superior de Comunicação Social do Instituto Politécnico de Lisboa, o convite e a oportunidade que me concederam.

Octávio dos Santos

Sobre o fantástico, no Público

«O fantástico é o género dominante na literatura portuguesa» é o subtítulo, e a tese, do meu artigo «A nostalgia da quimera», a partir de hoje disponível no Público (Online). Um excerto: «Não tanto pelo número dos seus livros mas mais pelo impacto e influência daqueles, o fantástico assume-se como o género dominante na (história da) literatura portuguesa – muito mais importante do que categorias ou épocas como o iluminismo, romantismo, realismo, modernismo, neo-realismo, pós-modernismo e outros “ismos”.»

Octávio dos Santos

Contra os feriados…

… De 10 de Junho e de 5 de Outubro votei hoje no inquérito que o jornal Público está a efectuar electronicamente, sob a pergunta «De que feriados abdicaria?» Para aqueles que ainda desconhecem as minhas opiniões sobre o (actual) «Dia de Portugal» e a República, aproveito para recordar artigos que escrevi e que publiquei – no Público! – sobre aqueles temas, especificamente este e este.

Octávio dos Santos

David e os «Golias»

Hoje, mais um (infeliz) aniversário do Terramoto de 1755, e num ano em que se assinalam os 300 do nascimento de David Perez, compositor italiano que viria a influenciar enormemente a evolução da música em Portugal. Nascido em Nápoles e falecido em Lisboa (em 1778), Perez veio para o nosso país a convite do Rei D. José. Principal maestro e autor da Corte, professor de princesas (entre elas a futura Rainha D. Maria I) e de Luísa Todi, criador de vastíssima obra tanto profana como sacra, foi também dele a música da ópera (drama) que estreou a Ópera (edifício) do Tejo.
Assim, e à semelhança do que tentei fazer em relação a Alfredo Keil, procurei, desde 2007, congregar esforços e recursos no sentido de gravar e publicar em disco(s), e pelo menos, «Alexandre na Índia». Com o maestro Jorge Matta elaborei um plano/orçamento e ambos contactámos o Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, e, depois, duas importantes empresas italianas, multinacionais, que operam em Portugal, uma do sector financeiro e outra do sector automóvel. Porém, e infelizmente, nenhuma daquelas três entidades se mostrou disponível para apoiar, para financiar o projecto. No entanto, deve-se esclarecer que por parte do IICL havia interesse mas não dinheiro, exactamente o contrário por parte das duas empresas – dois «Golias» empresariais que não quiseram ajudar a recordar, e a homenagear, um «David»… seu compatriota.
Todavia, e felizmente, o tricentenário do compositor acabou por ser celebrado. Em Portugal, através do colóquio internacional «David Perez e a Música da sua Época – 1711-1778», que decorreu entre 21 e 23 de Outubro no Museu de Aveiro e foi organizado pelo Centro de Estudos de Sociologia e Estética Musical da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Em Espanha, através da execução e da gravação, pela Real Companhia Ópera de Câmara (de Barcelona), de uma outra ópera sua, «Solimano» - que terá estreado em 1757 no Teatro da Ajuda, em Lisboa.

Octávio dos Santos

«Três» Marquesas

Dois livros, dois «romances históricos» que têm ambos como protagonista D. Leonor de Almeida, Marquesa de Alorna, foram publicados neste ano de 2011 com poucos meses de intervalo… e ambos por editoras do grupo LeYa: «As Luzes de Leonor», de Maria Teresa Horta, pela D. Quixote; e «Marquesa de Alorna – Do Cativeiro de Chelas à Corte de Viena», de Maria João Lopo de Carvalho, pela Oficina do Livro.
Este facto não passaria de uma coincidência, de uma curiosidade, não fossem relatos recentes feitos nomeadamente por Eduardo Pitta, José Paulo Fafe, Pedro Santana Lopes e Rodrigo Moita de Deus que referem a existência de uma polémica algo «subterrânea» em que certos quadrantes como que consideram a obra de Maria Teresa Horta (descendente da Marquesa) a «legítima», e a de Maria João Lopo de Carvalho (pertencente à família que adquiriu um palácio e propriedade que foram outrora da Marquesa) a «ilegítima»… e que, em consequência, estará a ser alvo de um boicote organizado (ou quase) que a impede de ser (mais) divulgada na comunicação social. Não se trata, de modo algum, de uma «punição» por (uma suspeita de) plágio, mas sim, tudo o indica, de mais uma demonstração da discriminação que também existe, e de que maneira, no «meio literário português»: Horta é de «esquerda», foi uma das «Três Marias»; e Carvalho é de «direita», é amiga do antigo primeiro-ministro de Portugal e antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa. A existir tal «campanha», isso não me surpreende. Já ando nisto há demasiado tempo para saber que tem mais probabilidades de ser publicado, publicitado e (em especial) premiado quem corresponder a um certo perfil, quem obedecer a determinada(s) fidelidade(s), enfim, quem se mostrar social, política e culturalmente «correcto».
Porém, há outro motivo, para mim mais importante, para abordar este assunto: é que em 2009, e por uma terceira editora do grupo LeYa (Gailivro/1001 Mundos), foi publicado outro livro em que a Marquesa de Alorna surge, se não como um(a) d(o)as protagonistas principais, pelo menos como a primeira das secundárias: o meu «Espíritos das Luzes». Apesar do cenário de fantasia proporcionado pelo «planeta Portugal», a D. Leonor que nele se encontra é a «genuína» - não só por serem mesmo suas as palavras que ela pronuncia na narrativa mas também por naquela se evidenciar, e potenciar, a sua inteligência e a sua independência, a sua ética e a sua estética. Enfim, uma mulher extraordinária que teve uma vida extraordinária… e que merece muitos livros.

Octávio dos Santos

Eu e os Alfredos

Desde há mais ou menos quatro anos que sou «assombrado» (no bom sentido) por, entre outros «fantasmas» (excelentíssimos), dois homens chamados Alfredo, ambos nascidos no século XIX, um inglês e outro português (embora filho de alemães). Um, Alfred Tennyson, escritor, morreu a 6 de Outubro de 1892; o outro, Alfredo Keil, compositor e pintor, morreu a 4 de Outubro de 1907. Pelo que hoje, 5 de Outubro, me parece ser o dia ideal para escrever novamente sobre estes dois grandes artistas, em relação aos quais decidi que queria fazer mais além de admirar as suas vidas e obras.
Sobre Alfred Tennyson os meus esforços resultaram em sucesso. Escrevi e consegui publicar (50 d)os seus «Poemas» em 2009 – ano do bicentenário do seu nascimento e dos 150 anos da sua visita a Portugal. O livro com as minhas traduções foi o primeiro editado em língua portuguesa exclusivamente com obras daquele autor; recebeu do jornal Público a classificação máxima (cinco estrelas); exemplares foram enviados para o Tennyson Research Centre, em Inglaterra; e tive a honra de contar com a presença e a participação do saudoso Paulo Lowndes Marques na apresentação, feita na Câmara de Comércio Luso-Britânica, em Lisboa. Onde, porém, não compareceu o então embaixador do Reino Unido em Lisboa. Hoje não tenho qualquer dúvida: Alexander Ellis não quis estar presente; nunca se mostrou interessado apesar de lhe ter sido comunicado que marcaríamos uma data adequada à sua disponibilidade; nem sequer se mostrou receptivo em receber-me para lhe oferecer um exemplar. Note-se que ele não deixou de assinalar os 40 anos dos Monty Python (!) e… os 200 anos da Batalha do Buçaco – acontecimento marcante para a Guerra Peninsular e para o Duque de Wellington, que Tennyson elogiou. Pergunto: porque é que um representante máximo de um país rejeita tão ostensivamente uma homenagem feita a um dos maiores artistas desse mesmo país? Respondo: porque um poeta laureado que encarnou e cantou a Inglaterra imperial constitui hoje um embaraço politicamente incorrecto para «progressistas» dados ao multiculturalismo. No entanto, a má educação de um deles não foi suficiente para estragar o meu êxito.
O mesmo já não posso dizer sobre Alfredo Keil, em que os meus esforços resultaram em fracasso. O meu objectivo era (e ainda é…) a edição de (mais) discos com gravações de obras do autor d’«A Portuguesa». E, como não sou músico, teria de recorrer a outras pessoas e a outras entidades. Assim, contactei, entre outras, a Câmara Municipal de Sintra, a Mineraqua (empresa proprietária das águas Castello, para as quais Keil compôs uma valsa), o Museu da Música (que tem no seu espólio instrumentos e partituras que foram de Keil), a Numérica (companhia discográfica que tem a concessão da colecção PortugalSom), a RTP/Antena 2 (que tem registos de espectáculos com músicas de Keil), o Teatro Nacional de São Carlos… Practicamente todas me disseram ter interesse pelo projecto… mas não outro elemento fundamental: dinheiro. Este poderia e deveria vir do Estado e, sim, da República… da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República. Afinal, se os criminosos maçons e carbonários de Afonso Costa não hesitaram em roubar para o seu regime a marcha de Keil, os seus «herdeiros e sucessores» poderiam e deveriam, pelo menos, fazer por ele algo de meritório com uma (pequena) parte dos dez milhões de euros do seu orçamento, e não apenas gastá-los em propaganda. Falei sobre o assunto com duas pessoas ligadas à CNCCR… sem resultados. Todavia, uma outra havia com especial obrigação na divulgação dos trabalhos de Keil: a então ministra da Cultura Gabriela Canavilhas, que, enquanto pianista, participou na gravação do único disco existente com peças daquele artista!
Tanto Alfred Tennyson como Alfredo Keil são, em circunstâncias diferentes e em modos distintos, exemplos de criadores que com o passar dos anos foram sendo cada vez menos valorizados pelos seus países. Estes, hoje, não são dignos deles. Não só por não os honrarem devidamente, mas também por terem «evoluído» para formas e apresentarem aspectos de que decerto aqueles dois homens se envergonhariam.

Octávio dos Santos

Lisboa Interior de Lisboa interior, ano 389 de Washington (1.ª Parte)

Lisboa Interior de Lisboa interior, ano 389 de Washington

 

- Primos, faz já muitos anos que não nos reunimos como uma venda central. E tal só se justifica, porque é de primordial importância que nos reunamos de modo a decidir o futuro, não o nosso, mas o dos nossos filhos que se querem sempre vassalos deste nosso reino. Na verdade o mundo exterior faz muito tempo que deixou de ser seguro, não só para os primos como para todos. Temos que libertar o nosso reino ou morrer. Temos que agir! Não podemos permitir mais que os nossos filhos não vejam a luz do sol de Lisboa. Não podemos mais deixarmo-nos subjugar aos invasores. Não podemos mais que o nosso Reino, pátria do humanismo e da abolição da pena de morte, continue a ser um rio de sangue, um mar de sofrimento e um oceano de angústia. Por isso, como arquitectos deste plano, vamos em frente, pelo Reino, pelo Rei e pela causa!

- Muito bem – Gritaram em coro, todos os outros seis primos presentes.

- Como estão as vossas choças, barracas e vendas?

 Um dos mascarados levantou-se e gritou efusivamente - Primos, os meus estão prontos para morrer em nome do Reino! E temos outros irmãos interessados em auxiliar a nossa causa, a guerra que abraçamos.

- Caros Primos, sei que alguns já foram irmãos. Sei que alguns de vós renasceram, enquanto seres pensantes, no seio dos irmãos. Mas por cautela, em nome da união do Reino, em nome da nossa família e de forma a preservar a nossa causa peço-vos encarecidamente que o teor da nossa reunião não seja revelado aos irmãos. Até porque sei que entre os irmãos não existe segredo que o seja, e sei também que entre os nossos, um de vós, ou um outro primo, das minhas barracas ou choças, ou das vossas, é um traidor. Sei que revela tudo o que se passa no mundo exterior.

- Tal não é possível! Todos os meus primos são insuspeitos!

- Os nossos também, disseram os restantes elementos do grupo.

- Muito bem primos! Vocês juraram a total fidelidade à nossa causa! Vós que sois possuidores de conhecimentos ancestrais! – De imediato o orador levantou-se, retirou a máscara de lã que lhe tapava a face, que mereceu de um dos elementos o seguinte comentário:

- O primo não pode fazer isso. Isso é a quebra total do nosso juramento.

- Claro que posso primo! Até porque como eu já lhes disse, um de nós é um traidor. E não acredito que seja algum membro menor de uma choça que o faça. Antes e tão só um de nós. E digo isto porque o segredo do nosso alfabeto foi exposto. E só um de nós, dos sete sabe o seu segredo.

- Não pode ser! Isto não pode estar acontecer, gritou um dos mascarados que se demarcava dos demais por ter um porte menos atlético, antes esquelético.

- Gostava que vós também destapásseis a cara. E se apresentassem, eu quero ver a cara do traidor. Eu chamo-me Artur Augusto Duarte da Luz Almeida, um primo, que como vós, jurou morrer pela causa e pelo Reino.

Apesar de mascarados a expressão de surpresa era tal que trespassava a máscara que todos empunhavam. Um deles, mais revoltado com o que se estava a passar, disse alto:

- Primo, o que fez é o fim do nosso movimento, não posso permitir que o faça!

- Pode sim Primo – disse Artur.

- Nunca! – Respondeu o primo exaltado – E muito menos se existe, como diz, um traidor entre nós!

- Tem toda a razão primo – Retorquiu Artur – Mas o que proponho a todos é que esse traidor seja hoje eliminado. Por isso o segredo da nossa organização estará a salvo!

- E como vamos eliminar esse primo traidor se não sabemos quem é?

- Diante de vós têm, como vêm, um copo com algum do melhor vinho que foi produzido pelos nossos ancestrais, a que juntei também, um dos melhores ingredientes que a nosso movimento dispõe para eliminar os indesejados. Todos vós sabeis ao que me refiro. Pelo que em nome do juramento que efectuaram, peço-vos que o bebam.

Um dos demais elementos, retirou a máscara, olhou para o orador, com ar sério, tão sério que a lágrima que começou a percorrer a sua face foi sugada pela seriedade da sua expressão, e disse:

- Primo, estou disposto a morrer pela causa. E faço-o já, sem hesitar um segundo que seja.

- Bem sei Belchior, respondeu-lhe Artur!

- Já vi que sabe o meu nome, não lhe vou perguntar como, até porque face à morte próxima, pouco mais me interessa. Mas, não vou morrer em paz, apenas por uma razão. Se somos nós os lideres das nossas choças e barracas e uma vez que somos nós os arquitectos dos planos. Como vão eles ser executados?

- Primo, já tratei de tudo, já tomei as necessárias medidas para que seja levado a cabo o plano de rebelião! Tenho dois primos operacionais que neste preciso momento, já devem estar infiltrados na Lisboa exterior, a rebelião está para breve. E mais não posso adiantar.

- Muito bem Primo – Diz Belchior, embora não informado, pelo menos conformado com a expressão de certeza de Artur – Estou disposto a ingerir o meu e o vosso destino. Assim o farei. – Empunhando o copo cheio de fenecimento sob a forma de vinho.

- Está na hora de todos retirarem a vossa máscara, está na hora de olharmos para o traidor. Um de vós o é, um de vós olhará para os outros Primos, olhará para quem irá assassinar, e nós, sem sabermos quem é, olharemos para o nosso assassino. Assim, embora não esclarecidos, teremos paz na morte.

Aquela sala escura, que fora durante anos uma antiga adega enterrada no meio de Lisboa, em local incerto, era agora como que uma cripta de honra, uma cripta onde aqueles sete homens experimentados, talvez, naquele mesmo lugar, fossem mais tarde honrados. Todos eles, inclusive o infame que conspurcava o ambiente de glória à humanidade, sabiam que naquele momento faziam história, não a história dos mártires, mas a história dos justos. Todos se sentiam honrados, alguns mesmo experimentavam o interno protagonismo que os levava a sentirem-se cretinamente uns heróis, como se os heróis soubessem que o são, fora de horas, eles que não tinham mais que uns meros minutos para pensar sobre se aquele acto, era o mais acertado, eles que tinham a noção de que em breve iriam perder o toque sagrado da vida em que se traduz o movimento ordenado de todas as moléculas, com um único desígnio. Apesar de cada um dos condenados o demonstrar de maneira diferente, todos experimentavam sensações idênticas, temiam a morte pois não acreditavam no além. E quem não acredita, de facto quando morre, morre mesmo. Era a cripta da auto-flagelação, flagelavam-se pelo facto de não poderem mais experimentar os prazeres da carne ou presenciarem os novos episódios da vida. Era a cripta da cobardia, do medo. Aquele que num primeiro momento, seria o local indicado para se celebrar o heroísmo era agora um local de morte, era o local da última quadra de um poema melancólico, de sete vidas que se fadaram para aquele único e exclusivo momento.

A totalidade dos membros presentes retiraram a máscara, formando um círculo, onde todos tentavam olhar nos olhos, uns dos outros, ao mesmo tempo. Como se fosse um duelo a sete. Sem querer perder o mais breve olhar que poderia denunciar o delator, aquele que tinha naquele momento as suas vidas a prazo. Ao som de comando de Artur, todos empunharam os copos como se fossem punhais, assim que o líquido tocou os lábios, todos fizeram uma pequena pausa, quase que imperceptível, para verificar que todos os demais também o ingeriam. Porém, ouviu-se a voz de Artur, que gritou:

-Parem primos! Bem sei que o delator não está entre nós, era apenas um teste, para me certificar da vossa lealdade. E sei, que vocês são os mais leais dos seres. Pelo que é hora de festejar!

Artur levantou-se, abriu a pesada porta que os isolava das restantes galerias, e gritou pelo nome de Francisco. Este, que rapidamente se juntou a eles e ainda ofegante, perguntou a Artur:

- Está na hora?

- Está sim. – Disse Artur.

Artur empunhou o copo que bebeu de um só trago, com a bebida que pouco tempo antes conseguira gelar aquela sala, o que levou todos os demais a fazer o mesmo. O que tornou o ambiente bem mais leve, pelo que o silêncio foi substituído por gargalhadas, nervosas e desencontradas, mas eram gargalhadas. Passados não mais que cinco minutos, entrou na sala Francisco, com uma terrina enorme em louça, um gancho e uma faca comprida. Tal como os porcos antes da matança, também os delatores sabem de antemão o que lhes vai suceder. Pelo que Marco Andrade da Cunha, guinchou, o que suscitou, o seguinte comentário por parte de Artur: - Hoje meus queridos Primos, vamos comer esparguete à Carbonária!

Para aqueles Primos, a carne dos infames, torna os puros mais fortes.

A receita:
4 colheres de sopa de azeite de oliva
4 gemas de ovos
½ chávena de chá de parmesão ralado na altura
10 colheres de sopa de natas
3 colheres de sopa de salsa picada
Sal q.b.
500 gr de esparguete
Água q.b.

Tiras de carne impura

A República nunca existiu!

E se a República nunca tivesse sido instaurada em Portugal, nem em 5 de Outubro de 1910 nem depois? Estas hipóteses constituem o ponto de partida para 14 «histórias alternativas», escritas por outros tantos autores, que aceitaram o desafio de imaginar um país distinto daquele que verdadeiramente existiu no século XX, e não só. Sempre um Reino, sempre uma Monarquia! Passado, presente e
futuro de uma nação foram rescritos, e o resultado é um livro como nunca houve em Portugal. Entre numa dimensão diferente e seja bem vindo à «outra» costa mais ocidental da Europa, onde «A República Nunca Existiu!»

Obrigado Octávio! Foi uma honra enorme para mim trabalhar contigo, ver o teu empenho e brío, o teu profissionalismo e dedicação!

A literatura alternativa portuguesa precisa que faças mais projectos e que nos faças a sonhar com a existência de melhores mundos paralelos.

Abraço amigo

A Junção do Bem.

AS GOTAS… (e a falta que me fazem)

Chá tranquilizante para uma noite pouco agitada.
Vento tépido em noite activa, é como um cão desumano aquém de um pé-de-vento sem talento.
Espirituosa cachinada proclamada por um boião de compota de cachamorra.
Desejando uma enguia eléctrica a procriar 23% das minhas necessidades eléctricas, para evitar saldar o tributo.

Metade de um buraco de uma peúga e uma outra meação quase rebocada.
Maravilhosos sais de fruta em forma de orégãos, para rebater a azia de laranjas sardentas em bocas sedentas.
Marafonas em forma de sanfonas bravias, para faustos ávidos, comensais e pérfidos
Popós anómalos para gente sem nexo, que sonda com demora a remissão do Sol.

Quebras de epístolas são fins sensabores de paladares insípidos de gentio em brenha.
Guarda-sóis, guarda-rios, guarda-costas, guarda-lamas e guarda-fatos, não conseguem todos juntos das borracheiras nos abrigar.
Meio anzol, não pesca metade do pescado, isto porque na arte da pescaria, ou é tudo, ou não é nada; e nada é não conseguir retirar do mar, inclusivamente a velha bota do pescador que tanto nos faz gracejar.
Por fim, e em resumo vos digo que: As gotas que me fornecem, os bem-nascidos mentais médicos que as estatuem, fixam-me a ciência, dão me até descontracção, mas tiram-me a arte da abstracção.

Por isso hoje, quando as gotas omiti, era porque havia decidido, com vaidade alimentar, a minha prazenteira, ambígua e vacilante disfunção.

Novo Rumo em Angola

A partir deste terceiro quadrimestre de 2011 há em Angola um novo órgão de comunicação social: a revista Rumo, publicação mensal sobre «negócios, conhecimento e estilo de vida». Que vai procurar «revelar os projectos empresariais e governamentais que estão a mudar» aquele país, nas províncias e não apenas na capital, e «mostrar as empresas de sucesso que fazem crescer a economia».
Resultado de uma parceria entre a Finicapital e a Impresa, a Rumo tem como director-executivo Luís Ferreira Lopes, meu amigo de há mais de 25 anos, com quem me iniciei no jornalismo (em 1985, no Notícias de Alverca) e escrevi o livro «Os Novos Descobrimentos», editado em 2006. Até recentemente editor de economia na SIC Notícias, ele decidiu imprimir uma grande viragem na sua vida aos níveis pessoal e profissional… juntamente com a sua esposa, Rosália Amorim, editora-chefe da Rumo e que desempenhou funções semelhantes tanto na Exame como no Expresso. Agora mudaram-se com «armas e bagagens»… e dois filhos para Luanda.
Deles se pode e deve esperar competência, dinamismo, independência e profissionalismo nas suas novas funções. Aquele país africano, tão distante mas tão próximo de nós, com tanto potencial mas ainda carente de muito do que é essencial, vai beneficiar bastante com a presença de ambos. Bom trabalho e boa sorte é o que eu lhes desejo.

Octávio dos Santos

Notáveis Críticas!!!

Notáveis críticas!!!

Caros amigos, estou felicíssimo de partilhar com vocês as críticas que fizeram alguns órgãos de comunicação a um texto que publiquei em “ Esquinas.org”.

The Times

“…Provavelmente o melhor prosista vivo, pena não estar morto para se lhe prestar uma digna homenagem…”

¶¶¶¶¶ -(isto na formatação original são estrelas, no caso cinco..)

The Guardian

“…Notável, esperamos que não se voltem repetir semelhantes textos…”

¶¶¶¶¶ (idem)

 A Maria

“…supera notavelmente algumas das melhores crónicas do nosso consultório sentimental…Sem dúvida alguma recomenda-se a sua leitura…”

¶¶¶¶¶ (mais do mesmo)

Agradecendo, desde já,  o vosso inestimável apoio e o que sempre tive da Microsoft que, desde sempre, me deu a oportunidade de usar o seu processador de texto, sem me cobrar (o facto de ser involuntariamente não interessa) qualquer quantia para efeito, deixo-lhes um cheirinho do texto e o link do sítio onde foi postado.- Por favor! Sabe dizer se existe algum atraso nos comboios? Estranhamente reparou J. que o som daquelas palavras que deveriam ter ecoado naquela estação completamente vazia, cuja configuração asseguraria de certeza um belo eco, na verdade foi absorvido por algo antes mesmo de embater nas paredes, parecia-lhe que a ele não era permitido deixar qualquer memória da sua vida que perdurasse no tempo, nem mesmo o efémero tempo que leva a ecoar uma palavra.

www.esquinas.org