Lisboa Interior de Lisboa interior, ano 389 de Washington
- Primos, faz já muitos anos que não nos reunimos como uma venda central. E tal só se justifica, porque é de primordial importância que nos reunamos de modo a decidir o futuro, não o nosso, mas o dos nossos filhos que se querem sempre vassalos deste nosso reino. Na verdade o mundo exterior faz muito tempo que deixou de ser seguro, não só para os primos como para todos. Temos que libertar o nosso reino ou morrer. Temos que agir! Não podemos permitir mais que os nossos filhos não vejam a luz do sol de Lisboa. Não podemos mais deixarmo-nos subjugar aos invasores. Não podemos mais que o nosso Reino, pátria do humanismo e da abolição da pena de morte, continue a ser um rio de sangue, um mar de sofrimento e um oceano de angústia. Por isso, como arquitectos deste plano, vamos em frente, pelo Reino, pelo Rei e pela causa!
- Muito bem – Gritaram em coro, todos os outros seis primos presentes.
- Como estão as vossas choças, barracas e vendas?
Um dos mascarados levantou-se e gritou efusivamente - Primos, os meus estão prontos para morrer em nome do Reino! E temos outros irmãos interessados em auxiliar a nossa causa, a guerra que abraçamos.
- Caros Primos, sei que alguns já foram irmãos. Sei que alguns de vós renasceram, enquanto seres pensantes, no seio dos irmãos. Mas por cautela, em nome da união do Reino, em nome da nossa família e de forma a preservar a nossa causa peço-vos encarecidamente que o teor da nossa reunião não seja revelado aos irmãos. Até porque sei que entre os irmãos não existe segredo que o seja, e sei também que entre os nossos, um de vós, ou um outro primo, das minhas barracas ou choças, ou das vossas, é um traidor. Sei que revela tudo o que se passa no mundo exterior.
- Tal não é possível! Todos os meus primos são insuspeitos!
- Os nossos também, disseram os restantes elementos do grupo.
- Muito bem primos! Vocês juraram a total fidelidade à nossa causa! Vós que sois possuidores de conhecimentos ancestrais! – De imediato o orador levantou-se, retirou a máscara de lã que lhe tapava a face, que mereceu de um dos elementos o seguinte comentário:
- O primo não pode fazer isso. Isso é a quebra total do nosso juramento.
- Claro que posso primo! Até porque como eu já lhes disse, um de nós é um traidor. E não acredito que seja algum membro menor de uma choça que o faça. Antes e tão só um de nós. E digo isto porque o segredo do nosso alfabeto foi exposto. E só um de nós, dos sete sabe o seu segredo.
- Não pode ser! Isto não pode estar acontecer, gritou um dos mascarados que se demarcava dos demais por ter um porte menos atlético, antes esquelético.
- Gostava que vós também destapásseis a cara. E se apresentassem, eu quero ver a cara do traidor. Eu chamo-me Artur Augusto Duarte da Luz Almeida, um primo, que como vós, jurou morrer pela causa e pelo Reino.
Apesar de mascarados a expressão de surpresa era tal que trespassava a máscara que todos empunhavam. Um deles, mais revoltado com o que se estava a passar, disse alto:
- Primo, o que fez é o fim do nosso movimento, não posso permitir que o faça!
- Pode sim Primo – disse Artur.
- Nunca! – Respondeu o primo exaltado – E muito menos se existe, como diz, um traidor entre nós!
- Tem toda a razão primo – Retorquiu Artur – Mas o que proponho a todos é que esse traidor seja hoje eliminado. Por isso o segredo da nossa organização estará a salvo!
- E como vamos eliminar esse primo traidor se não sabemos quem é?
- Diante de vós têm, como vêm, um copo com algum do melhor vinho que foi produzido pelos nossos ancestrais, a que juntei também, um dos melhores ingredientes que a nosso movimento dispõe para eliminar os indesejados. Todos vós sabeis ao que me refiro. Pelo que em nome do juramento que efectuaram, peço-vos que o bebam.
Um dos demais elementos, retirou a máscara, olhou para o orador, com ar sério, tão sério que a lágrima que começou a percorrer a sua face foi sugada pela seriedade da sua expressão, e disse:
- Primo, estou disposto a morrer pela causa. E faço-o já, sem hesitar um segundo que seja.
- Bem sei Belchior, respondeu-lhe Artur!
- Já vi que sabe o meu nome, não lhe vou perguntar como, até porque face à morte próxima, pouco mais me interessa. Mas, não vou morrer em paz, apenas por uma razão. Se somos nós os lideres das nossas choças e barracas e uma vez que somos nós os arquitectos dos planos. Como vão eles ser executados?
- Primo, já tratei de tudo, já tomei as necessárias medidas para que seja levado a cabo o plano de rebelião! Tenho dois primos operacionais que neste preciso momento, já devem estar infiltrados na Lisboa exterior, a rebelião está para breve. E mais não posso adiantar.
- Muito bem Primo – Diz Belchior, embora não informado, pelo menos conformado com a expressão de certeza de Artur – Estou disposto a ingerir o meu e o vosso destino. Assim o farei. – Empunhando o copo cheio de fenecimento sob a forma de vinho.
- Está na hora de todos retirarem a vossa máscara, está na hora de olharmos para o traidor. Um de vós o é, um de vós olhará para os outros Primos, olhará para quem irá assassinar, e nós, sem sabermos quem é, olharemos para o nosso assassino. Assim, embora não esclarecidos, teremos paz na morte.
Aquela sala escura, que fora durante anos uma antiga adega enterrada no meio de Lisboa, em local incerto, era agora como que uma cripta de honra, uma cripta onde aqueles sete homens experimentados, talvez, naquele mesmo lugar, fossem mais tarde honrados. Todos eles, inclusive o infame que conspurcava o ambiente de glória à humanidade, sabiam que naquele momento faziam história, não a história dos mártires, mas a história dos justos. Todos se sentiam honrados, alguns mesmo experimentavam o interno protagonismo que os levava a sentirem-se cretinamente uns heróis, como se os heróis soubessem que o são, fora de horas, eles que não tinham mais que uns meros minutos para pensar sobre se aquele acto, era o mais acertado, eles que tinham a noção de que em breve iriam perder o toque sagrado da vida em que se traduz o movimento ordenado de todas as moléculas, com um único desígnio. Apesar de cada um dos condenados o demonstrar de maneira diferente, todos experimentavam sensações idênticas, temiam a morte pois não acreditavam no além. E quem não acredita, de facto quando morre, morre mesmo. Era a cripta da auto-flagelação, flagelavam-se pelo facto de não poderem mais experimentar os prazeres da carne ou presenciarem os novos episódios da vida. Era a cripta da cobardia, do medo. Aquele que num primeiro momento, seria o local indicado para se celebrar o heroísmo era agora um local de morte, era o local da última quadra de um poema melancólico, de sete vidas que se fadaram para aquele único e exclusivo momento.
A totalidade dos membros presentes retiraram a máscara, formando um círculo, onde todos tentavam olhar nos olhos, uns dos outros, ao mesmo tempo. Como se fosse um duelo a sete. Sem querer perder o mais breve olhar que poderia denunciar o delator, aquele que tinha naquele momento as suas vidas a prazo. Ao som de comando de Artur, todos empunharam os copos como se fossem punhais, assim que o líquido tocou os lábios, todos fizeram uma pequena pausa, quase que imperceptível, para verificar que todos os demais também o ingeriam. Porém, ouviu-se a voz de Artur, que gritou:
-Parem primos! Bem sei que o delator não está entre nós, era apenas um teste, para me certificar da vossa lealdade. E sei, que vocês são os mais leais dos seres. Pelo que é hora de festejar!
Artur levantou-se, abriu a pesada porta que os isolava das restantes galerias, e gritou pelo nome de Francisco. Este, que rapidamente se juntou a eles e ainda ofegante, perguntou a Artur:
- Está na hora?
- Está sim. – Disse Artur.
Artur empunhou o copo que bebeu de um só trago, com a bebida que pouco tempo antes conseguira gelar aquela sala, o que levou todos os demais a fazer o mesmo. O que tornou o ambiente bem mais leve, pelo que o silêncio foi substituído por gargalhadas, nervosas e desencontradas, mas eram gargalhadas. Passados não mais que cinco minutos, entrou na sala Francisco, com uma terrina enorme em louça, um gancho e uma faca comprida. Tal como os porcos antes da matança, também os delatores sabem de antemão o que lhes vai suceder. Pelo que Marco Andrade da Cunha, guinchou, o que suscitou, o seguinte comentário por parte de Artur: - Hoje meus queridos Primos, vamos comer esparguete à Carbonária!
Para aqueles Primos, a carne dos infames, torna os puros mais fortes.
A receita:
4 colheres de sopa de azeite de oliva
4 gemas de ovos
½ chávena de chá de parmesão ralado na altura
10 colheres de sopa de natas
3 colheres de sopa de salsa picada
Sal q.b.
500 gr de esparguete
Água q.b.
Tiras de carne impura