HOUSE OF MIRRORS

Quem gosta de Dr.House? Eu, eu, eu! Não é só a personagem bem montada e profunda, a interpretação de Hugh Laurie ou os diálogos fulminantes. É mais do que isso. Acontece um pouco com séries de médicos mais chochas e menos conseguidas, como «ER», «Anatomia de Grey» ou mesmo «Chicago Hope», mas em «House» atinge um nível superior: a linguagem.

«House» está estruturado como um policial, em que os detectives tentam desesperadamente, em situações de vida ou morte, encontrar a doença assassina. Mas mais de metade do que dizem está num linguajar absolutamente indecifrável de termos técnicos. Género:

- Deve ser um esiloquilofócus urilabicudos simplex.
- Então dêem-lhe 5 miligramas de furibtariloquilos complecus.
- Mas se fôr guraptorus totus, isso pode matá-la.

Enfim. Que remédio temos nós senão focar-nos nas pessoas, no drama humano, naquilo que está para lá e por detrás das palavras: as emoções e as ideias.

Várias peças de teatro conseguem o efeito que conseguem apesar de o público não ser capaz de perceber metade das palavras. E quem já viu uma peça de Shakespeare em inglês terá sentido, provavelmente, isso:

- I sallute your esilquency urilabious simple!
- Death will awake her!
- Words! Words! Words!

As pessoas para lá das palavras…

Suponho que é também um dos apelos que a Veryveryshort fiction (como diria a Margarida) tem em mim: joga com os espaços e os silêncios. Joga com a imaginação das pessoas. Lança-se uma ideia, qual semente, e depois, num acto de intimidade básica, o leitor desenvolve o conteúdo segundo as suas fantasias. Um texto em espelho, parece-me a mim.

É possível, até escrever uma história sem palavras nenhumas: afinal, o escritor não escreve com palavras, escreve com ideias, não é? O resto é peanuts.

Vá lá, deixando-me de pomposisses teóricas: eu escrevo veryveryshort fiction porque é divertido! Exactamente a mesma razão pela qual vejo o «House».

Comments 5

  1. dioptrias wrote:

    Caro Bruno!

    Concordo contigo mas no limite uma VVS (veryveryshort) fiction sem palavras é como o proto-filme “Branca de Neve” do João César Monteiro ou o charuto do Clinton (fumo mas não inalo). Uma forma fácil e barata de escapar ao trabalho doloroso de juntar duas palavras e dar-lhes sentido.

    Um abraço

    Posted 29 Jun 2007 at 10:50
  2. ladob wrote:

    Ah, é? Então cheka lá o meu novo post…

    Posted 29 Jun 2007 at 10:58
  3. Margarida wrote:

    Nunca mais me vou esquecer. Foi na Tate Gallery (in London, yes). Em lugar de destaque, estava um tela branca (absolutamente gigantesca), toda branca … excepto um ponto/pingo/borrão preto no canto inferior direito. O que mais ma fascinou não foi a obra (a sério! mas eu sou assim…) foram as várias pessoas que estavam, com um olhar profundo, a disfurtar do “génio” do autor … ladob, gosto muito de te ler … convém que não adiras … não nos deixes páginas em branco … o “titalú” pelo menos, está bem ? :)

    Posted 30 Jun 2007 at 1:15
  4. ladob wrote:

    Pelo contrário, Margarida. Concordo plenamente contigo. Na verdade, arte que tem de ser explicada não é, em rigor, arte.

    Mas isso não invalida nada do que foi dito, apenas demonstra a minha falta de talento para expor as minhas ideias sem palavras.

    Mas, com muito pouco, o Alex (dito “O”), conseguiu bastante!(ver post «O “O” Ataca de Novo»).

    Posted 03 Jul 2007 at 15:11
  5. Margarida wrote:

    onde se lê: “ma” fascinou
    deve ler-se: me fascinou
    onde se lê: a “disfurtar”
    deve ler-se: a disfrutar

    Desculpa a sinceridade mas estás a ter uma crise de falsa modéstia, ladob ! (lol)
    Obrigada pela dica mas acabei de vir de lá … do Alex e do seu “O” … e vê-se que lá estive …
    Ser o ladob a dizer que o Alex conseguiu bastante (não está em causa) … “com muito pouco” … não é qualquer coisa ?

    Posted 03 Jul 2007 at 23:24

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