Blogonovela - 11

11.º Episódio –– A quelque chose malheur est bon. 

Bagdad manhã do dia seguinte; o mercado está vazio, os vendedores queixam-se da falta de clientes, na agitação das suas conversas existem dois únicos pontos de convergência: Os combates retiram-lhes clientes. O Chinês não vai chegar vivo à hora de almoço. Junto ao campo onde decorrem os jogos de combate as pessoas juntam-se para fazer apostas, até que Mamad, o corretor de apostas, manda suspender as mesmas, todos haviam apostado no adversário de Yong-Lo, logo não havia razão para aceitar qualquer aposta, até que chega junto do corretor uma lindíssima mulher de cabelo preto, olhos negros e pele muito branca, traz a tiracolo um saco feito de pele de camelo que entrega ao corretor, depois com voz determinada diz-lhe:

- Estão aí mil dinheiros de ouro e quero apostar tudo em Yong-Lo, o guerreio chinês.

Mamad o corrector, agarrando avidamente o saco do dinheiro, talvez quem sabe por descargo de consciência, diz à linda senhora:

- Isso é uma promessa? Sabe o que está a fazer? Alá nunca me iria perdoar se aceitasse semelhante aposta. Quem me julga que sou? Olhe que sou um corrector honesto viu???

A senhora face àquela inesperada, porque correcta, reacção de Mamad retorquiu:

- Aceite aposta. Eu estou apostar para ganhar!

Seguidamente ouve-se Mamad gritar:

-  Já aceito apostas de novo!

- Venham Senhoras e Senhoras apostar, que de certeza muitos dinheiros vão ganhar!!! (gritou ele de modo acentuar a rima).

Já no recinto que serve de campo de batalha onde decorrem os jogos, quem está ao longe apenas consegue visualizar o adversário de Yong-Lo, pois é alto, muito alto mesmo, diria que mede cerca de dois ou três Yong-Los bem aviados. Na mão direita tem pesado escudo (que saudades já tenho dele) em ferro rusticamente forjado, na esquerda segura uma moca gigante cravada com espinhos de ferro aguçadíssimos, o espaço não preenchido pelos espinhos, está preenchido com memórias de batalhas anteriores, ou seja, com partes de escalpe com cabelos de todas as cores, destacando-se os ruivos, restos de ossos não identificáveis, pedaços de armaduras e restos de animais que haviam sido sacrificados ao estômago do gigante. Esquecia-me de mencionar que, o adversário de Yong-Lo é um ciclope, o único olho que possui é enorme e ameaçador, a sua forma faz lembrar o olho do polvo gigante de Júlio Verne. É aterrador. Pelo facto de nunca ter perdido uma única batalha e por deixar os seus oponentes num estado tão deplorável que jamais eram reconhecidos, nem sequer pelas suas mães, mulheres, ou filhos, chamavam-lhe o Ciclope Ciclone.

Na face do terrível adversário do nosso herói não existe qualquer tipo de expressão. Enquanto, Yong-Lo, com ar bem disposto, segura a sua espada samurai, Yamguti Sakato, com a mão direita e o espelho, que mantém escondido atrás das costas, com a sua mão esquerda, não sabe qual a vantagem em tê-lo ali, mas sabe que o faz, porque a feia senhora que beijara na noite anterior, lhe havia pedido para o fazer.

Estão os dois na praça olhando-se fixamente, o gigante ciclope e o baixo Yong-Lo, primeiro soam as cornetas, para avisar que em breve se irá dar início ao combate, depois começam a trovejar os tambores que anunciam, em definitivo, o começo da peleja. Yong-Lo, reactivamente ao som dos tambores, ao invés de levantar a sua espada, como era o seu desejo, como que manietado por um qualquer poder superior, levanta o espelho de mão cravado de diamantes, modo a que o Grande Ciclope Ciclone nele se consiga ver, este após ultrapassar a surpresa de nele se ver reflectido, deixa cair o pesado escudo e atira para bem longe a terrível moca, prostrasse no chão e desata a chorar. Yong-Lo que trazia sempre com ele um lencinho de mão em linho, finamente bordado com motivos campestres da China, apressasse a entrega-lo ao seu adversário, ao mesmo tempo que o faz, pergunta-lhe:

- Não tenho nada com isso, mas, não temos um combate para acabar?

Ao que lhe responde o grande Ciclope Ciclone, agora no papel de Ciclope Chorão:

Já ganhas-te o combate! Acabou!

Yong-Lo olha-o com uma expressão de surpresa e diz-lhe:

- Porquê? Não te feri!

- Feriste sim, deste-me uma estocada mortal – Disse o Ciclope. – Acabei de morrer, por favor agarra na tua espada e acaba com o meu sofrimento!!!

De repente todo o público extasiado, porque se havia apercebido que em breve, sangue jorraria, grita em uníssono:

- Mata!!! Mata!!!

Yong-Lo, vendo o estado de sofrimento a que estava sujeito o seu adversário, questionou-o:

- Diz-me, que havia neste meu espelho para tu estares nesse pranto?

Soluçando diz-lhe o gigante:

- Olha, nós podemos morrer de muitas maneiras, e também podemos estar mortos e parecer-mos que continuamos vivos. Eu estava morto e tu fizeste-me lembrar isso mesmo. Estou morto, faz muitos anos. Vou-te contar os meus motivos desta minha comoção para que possas ser misericordioso comigo, matando-me. Eu, faz muitos anos, conheci uma princesa que era linda, tinha o olho mais bonito que havia no reino dos ciclopes, era de um azul lindíssimo e tinha umas belíssimas pestanas reviradas. Que saudades tenho eu dela!!! Sabe como eu a conheci? Estava eu a mocar, porque batia com uma moca, a cabeça de um tratante quando a vi passar, gostei tanto dela que deixei o tratante fugir, segui-a, e ainda nesse dia cheguei ao pé dela e perguntei-lhe: - Queres casar comigo? E ela disse logo que sim. De seguida fomos casar, já ao pé do mestre-de-cerimónias e enquanto ele nos perguntava se aceitávamos viver com os nossos dois olhinhos sempre unidos para o bem e para o mal. Inexplicavelmente! Apareceu naquela linda face ciclópica mais um olho. Ficando ela completamente desfigurada. Como era possível tal? Ainda assim como eu a amava muito disse-lhe: - Caso contigo mesmo com dois olhos. Eu e a minha boca! Ela não sabia que tinha dois olhos, assim que ouviu tal, caiu no chão redondinha, e morreu. Morreu por culpa minha, nunca lhe deveria ter dito que tinha dois olhos. Desde aí que a minha vida perdeu importância, e tenho estado a combater tudo e todos, na verdade para combater o meu desgosto e para esquecer a minha amada. Quase que tal havia sucedido, mas agora quando olhei para o espelho vi a imagem dela e veio-me à cabeça o meu pior receio. Sabes qual é? A solidão que tem sido toda a minha vida, por isso te peço meu bom homem, acaba comigo por favor. Porque pelo menos aqui morro acompanhado, mesmo que seja por multidão sequiosa do meu sofrimento, se deixar passar o tempo morrerei na mesma, mas desta feita com o tormento de o fazer sozinho. E quem morre sozinho como sabes meu bom amigo, não morre em paz, porque não fica ninguém para relatar a nossa morte, e só morremos quando nos vêm morrer, de outra forma somos dados como desaparecidos. Logo não morremos, porque não somos passado nem presente, antes um estado intermédio que não é compatível com a harmonia de quem morre e de quem vive. E a vida meu amigo guerreiro só tem duas realidades, a vida e a morte.

Yong-Lo segura então a espada com as duas mãos, não sabe o que fazer, mas vê aquele homem como um doente intratável, e ele sente-se como um médico que tem que tem de cometer eutanásia.

Sem qualquer aviso prévio, Yong-Lo, empunhado a espada com a habilidade de cirurgião que segura um bisturi, desfere o golpe fatal, separando a cabeça do corpo daquele Choroso Ciplope. O árbitro de campo vem então, ofegantemente, a correr até chegar corpo do de cujus, segurando-lhe depois a cabeça, levanta-a exibindo ao público extasiado por sangue. Mas ao contrário do esperado não existiu qualquer reacção de júbilo da plateia, pois ninguém teve coragem de troçar daquela cabeça, pois exibia um dos mais lindos sorrisos que uma face feia como aquela poderia ter, o sorriso de(o) alívio.

            Et voilá comme on écrit l´histoire !!! (Voltaire – Henriada, canto I)

Comments 1

  1. atmosphere wrote:

    um fim negro… muito negro…. mas muito bem escrito!

    Posted 10 Jul 2007 at 12:22

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