MODIGLIANI

Por conselho do nosso querido Luís Atmosphere, vi este fim de semana o filme sobre Modigliani, de seu nome «Modigliani», realizado por Mick Davis e protagonizado por Andy Garcia. Inspirou-me, esta obra, a pensar na escrita, no que é o tutano de um escritor, quais as características mais evidentes. Confesso que, ao longo dos anos, estas coisas mudaram muito dentro dessa fossa céptica endiabrada que é o meu pensamento.

Enumeremos, então, alguns dos atributos fundamentais de um escritor.

A EXPERIÊNCIA: «Escrever sobre o que conhecemos» é um daqueles conselhos que surge em quase todos os livros de Escrita Criativa (e quando digo quase todos é porque não li a maioria deles). Costumava eu dizer, quando era jovem e estúpido, que até um bebé de 6 meses tem algo sobre o que escrever. Continuo a dizê-lo, só que já não sou (muito) jovem (é um debate em aberto se sou estúpido ou não).

O OLHO: Dizia eu quando era jovem e estúpido que não se pode ser escritor sem se ter olho. Digo «olho», mas quero dizer «olhar sobre as coisas». «Veio do alto da escada, trazendo uma tigela com espuma de barbear, na qual se cruzavam, em cima, um espelho e uma navalha.» Porque é que Joyce escolheu falar-nos da tigela, do espelho e da navalha de Buck Mullingan não interessa, interessa apenas que o «viu». É preciso ver (seja com que sentido for) para escrever.

O SABOR: Referia Luis Borges o bispo Berkeley para falar da escrita: «O sabor da maçã não está na maçã nem na boca de quem come, está em ambos». Quer isto dizer que escrever é comunicar? Certamente que sim. Tudo o que é arte é comunicar. Escritor que não consiga empatizar com as suas personagens e com um público é pobre, mal agradecido e merecia que lhe dessem malaguetas ao pequeno-almoço.

A VOZ: Ah! Esta nobre e requintada travessa de prata! Eis uma virtude sofrida que tanto me tem feito correr e andar de joelhos noites a fio! Não estou a falar apenas de espírito crítico ou de filosofia ou sequer de estilo, estou a falar de corpo, de sangue, de dar expressão aos fantasmas e aos anjos que nos envolvem a alma. Os escritores que são sereias e nos tornam Ulisses, amarrados a um poste, são os que conseguem dominar a sua «voz», o que têm para dizer, de um modo que se nos entranha nos ossos. Um escritor com «voz» já não escreve, canta. E parece que tudo o que tem para dizer se encaixa num só decibel.

Ora, há no entanto mais um atributo, parece-me a mim, que é ainda mais nobre e mais ousado do que esta maravilha sonora. Uma característica que Modigliani, no filme e na vida, conseguiu com «Jeanne», um quadro que parece defini-lo. E a razão pela qual (no filme, não sei se na vida) pintou os olhos.

O TOQUE: O toque é a suprema virtude de um escritor. Está muito perto da Iluminação dos Budistas. Quando um escritor «toca» a realidade, tudo o que pensa e tudo o que escreve parece vir da própria mente do leitor. Naquele momento, o artista está a «largar-se» e consegue dizer: «Isto sou eu, pessoa viva…» Aquilo que é a vida está naquele toque.

Quando acabei de ver o filme, comovido, estava a pensar: ele conseguiu. Modigliani conseguiu. Com um retrato de uma mulher grávida de cabeça inclinada, ele «tocou» a realidade. Ele tocou a própria existência.

Senti a mesma coisa quando vi «A Rapariga do Brinco de Pérola» de Peter Webber. Todo o filme, que até é interessante, obliterou-se-me por completo quando vi a última imagem, a imagem do quadro de Vermeer. Uma rapariga, a olhar de lado, com um brinco. O que pode ser mais banal? Mas ele «tocou» qualquer coisa.

E sinto a mesma coisa quando leio «O Velho e o Mar» ou «A Viagem ao Farol» ou «A Canção de Mim Mesmo».

Enfim, é esta a minha perseguição…
Um dia, quero ter «O Toque».
Perdoem-me, gentis senhores e gentis senhoras, se a minha ambição vos escandaliza, mas a modéstia não cabe no saco das ambições.
Modigliani para vós também.

Comments 3

  1. Manela wrote:

    Não me escandalizei nadita… o Universo está sempre ao nosso alcance. Faz favor de continuar…

    Posted 16 Jul 2007 at 21:25
  2. ajuncaodobem wrote:

    O toque já o tens…
    Muito bom!

    Posted 17 Jul 2007 at 10:39
  3. ladob wrote:

    Bem… deixam-me sem palavras…

    Posted 17 Jul 2007 at 12:24

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