A esquina

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"Buscas" de Manuela Jorge - acrílico com textura em tela

Há cruzamentos na nossa vida que não entendemos de imediato. Passam-nos fugazes, incontroláveis, apesar da nossa arrogância em tentar controlar ou perceber antecipadamente. O entendimento tem o seu próprio caminho. O seu tempo e espaço próprios. A história narrada por João, num dia primaveril, é um desses momentos. Encontrava-me com João esporadicamente para uns almoços, no Magnetic. Não mais do que meia dúzia ao longo do ano. Falávamos de banalidades. Dos tempos de Faculdade. Da família, do emprego. Conversas inócuas, superficiais para passar o tempo em cada garfada. No último almoço não fiquei indiferente à história narrada por João.

Aos quarenta anos João decidiu voltar a estudar. Para alargar os seus horizontes, mas sobretudo para manter a sua sanidade mental na monótona função, como confidenciava, de chefe de contabilidade de um departamento público. Obteve a autorização do seu superior. Matriculou-se e foi seleccionado. Motivado, esperava ansiosamente pelo início das aulas. Sentia-se como um adolescente, dizia-me. Perdia horas a escolher os blocos, a melhor lapiseira, ficava indeciso entre as cargas clássicas para a sua Parker, ou as novas de gel. Dois dias de manhã por semana, das oito da manhã ao meio-dia. Ao sábado começava e acabava mais tarde. Motivado, era o primeiro a chegar à Faculdade. Tinha tempo para um café e para seleccionar as lapiseiras, as canetas e sobretudo os marcadores. Sim, os marcadores. Instrumentos essenciais para seleccionar os apontamentos. Verde para o essencial, amarelo para o acessório, como gostava de referir em jeito de confidência.

Nos primeiros dias não reparou. Com o tempo foi tomando atenção aos dois vultos no caminho da Faculdade. Todas as manhãs estavam imóveis na esquina depois do semáforo. A mãe e o filho. Ele de cadeira de rodas. Os trejeitos bruscos e os movimentos descoordenados eram notórios. Paralisia infantil, pensou ele. Dia após dia, os dois esperavam à mesma hora. Quinze minutos para as oito quando dobrava a esquina. Do carro, com o sinal vermelho, olhava para os movimentos do filho e um sentimento de compaixão e comiseração apoderava-se dele. “A vida é safada”, pensava. Todos os dias esperava que o sinal ficasse verde. Mas não deixava de olhar ao dobrar a esquina. Pedia apenas que fosse um olhar rápido. Todas as semanas “aquela pobre mãe e o desgraçado do filho”, como dizia, “esperavam”. Gravado na memória os mesmo movimentos. A mesma cadeira de rodas com a mochila pendurada. Os dias somavam-se. Observava-os. Eles não deixaram de me observar naquele carro igual, que passava todas as semanas pelo mesmo local à mesma hora. A familiaridade que se estabelece entre estranhos. Sem ponto de contacto e de comunicação, apenas porque partilharmos o mesmo espaço e o mesmo tempo, dia após dia. Um dia no semáforo, ele olhou para mim. Os trejeitos não escondem o olhar. Tentou esboçar um aceno. Os olhos continuavam a fitar-me. Os olhos mais rápidos do que o corpo, acenavam-me. Eu esbocei um ligeiro sorriso e acenei timidamente. A mãe respondeu com um ligeiro sorriso.
A chuva veio. Eles continuavam lá. A mãe com metade do corpo molhado segurava o pequeno guarda-chuva. O jovem acenava-me. Dia após dia eu acenava-lhes. O mesmo gesto. O mesmo sorriso.
Um dia atrasei-me. No sinal vermelho, observei a mãe. Trajos humildes. Meia idade. O corpo disforme pelas “amarguras” pensei eu. Varizes de esperar ano após ano. De um trabalho pago miseravelmente. Mãos cruzadas seguravam um saco plástico. Um casaco coçado. Um rosto marcado pelas rugas. Uns dias pálido outros vermelho pelo Sol. As olheiras constantes. Mas naquele dia notei nos olhos uma dignidade como nunca tinha visto em alguém. A dignidade que provém do estoicismo. Da espera paciente mesmo que o dia de amanhã seja igual ao de hoje.
O que me impressionava era o sentido de união plena. Os dois eram um só. Era impossível olhar para um sem ver o outro. O que os protegia do mundo era a dignidade dela. Um olhar meigo e sereno. Sem medo. Aquele olhar sereno que só provém da coragem e da sabedoria dos dias.

A carrinha para deficientes parou. A porta abriu-se. A rampa automática baixou. Ela, retirou do saco plástico um pente. Carinhosamente tentou pentear o cabelo do filho. Não o conseguiu. Compôs-lhe apenas a franja. Ele esticou desordenadamente o pescoço num gesto esforçado e meigo. Ela beijou-lhe a face. Fez-lhe uma última carícia e murmurou algo. A porta fechou-se. Ela esperou que a carrinha avançasse. Acenou para ele. Ficou uns segundos imóvel até ver a carrinha desaparecer. De saco na mão andou lentamente com o peso das pernas.
Buzinaram-me. Estava verde. Arranquei. No dia a seguir escolhi outro trajecto. A dignidade e o amor por vezes esmaga. Faz-nos reflectir. Nunca mais passei por lá. Nunca mais os vi. Passaram-se anos mas aqueles momentos de dignidade e coragem continuam gravados em mim.

Pedimos dois cafés e sorrimos.

Comments 3

  1. ladob wrote:

    Um verdadeiro 3 em 1. Estou impressionado! Bastante boa, a maneira como cada história se entrelaça com outra. Muito bonito.

    Posted 21 Ago 2007 at 10:46
  2. Manela wrote:

    Que bom rever esta história. Obrigado Luís.Ainda há mais eu sei:)

    Posted 21 Ago 2007 at 13:38
  3. ajuncaodobem wrote:

    O Luís tem um péssimo defeito, de apenas nos iluminar com uma história, muito bem construída, de cada vez.
    É bom saber que nesta vida de encontros e desencontros, de altos e baixos, se pode conhecer pessoas como vós, meus queridos blogueiros…
    Um abraço a todos

    Posted 24 Ago 2007 at 11:33

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