Escrevia muito bem, noutro dia, o meu amigo Octávio Quinas sobre o nosso fascínio pelos ídolos como Diana Spencer, Freddy Mercury, Airton Senna e, porque não, outros de igual ou maior fascínio, como Jim Morrison, John F.Kennedy, Kurt Cobain ou Bruce Lee. Deixem-me arriscar um comentário mais tortuoso:
Estas «idologias», este fascínio viciado por ídolos sagrados, são de facto fascínios por aquilo que nos falta a cada um de nós, comum dos mortais. Se o desejo move tudo e se estamos constantemente a tentar conquistar uma felicidade qualquer ideal (que de facto, nunca alcançaremos porque não existe), talvez seja mais fácil encararmos as nossas lacunas e os nossos vazios admirando as características que invejamos nos outros. «É possível, nem que pelo menos em sonhos, ser assim como aquele ídolo que ali está.» Ou seja, preenchemos os nossos vazios com aquilo que os outros têm em excesso. Os nossos ídolos remetem-nos para a nossa condição de comuns seres humanos.
A tortuosidade está em que nem os nossos ídolos, em rigor, são ídolos. Na verdade são pessoas, como todos nós, que tentam preencher os seus vazios com o excesso do desejo dos outros: eles são ídolos porque os fazemos ídolos, são ídolos porque delegámos neles a riqueza das nossas vidas.
Curiosamente, este sistema só funciona se ambos falharmos: só faz sentido continuarmos a tentar preencher os nossos vazios com os nossos ídolos se continuarmos vazios e os nossos ídolos só podem continuar a tentar preencher os vazios deles com o nosso desejo se continuarem vazios eles mesmos.
Assim, uma morte prematura e injusta é uma saída ideal: a culpa continua a ser dos deuses e o falhanço nunca é completo. A idologia consegue assim viver, nem que seja nas ondas hertezianas – porque a morte, que em retrospectiva parece «lógica», em rigor nos impediu a comunhão ideal, a felicidade impossível, o verdadeiro fim. Os ídolos transformam-se em mitos e, logo, úteis, perfeitos e imortais.
Fascinante……
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