Exactamente seis meses depois deste meu artigo ter sido publicado no Público, e na semana em que o DVD do filme a que ele se refere ter sido lançado em Portugal, eis esta minha retrospectiva da vida e da obra de Frank Miller – para todo o pessoal do Esquinas em geral e para o Bruno em particular!
Frank Miller, que poderíamos designar quase como um (moderno) «Cavaleiro dos Comics», completou neste ano de 2007, no passado dia 27 de Janeiro, 50 anos. E ele celebra meio século de vida numa altura em que mais um filme baseado numa obra sua – a seguir a «Elektra», dirigido por Rob Bowman, e a «Sin City», realizado por Robert Rodriguez e por ele próprio – estreia com grande sucesso um pouco por todo o Mundo, Portugal incluído.
«300», dirigido por Zack Snyder, narra a odisseia das poucas centenas de guerreiros espartanos que, há quase três mil anos, enfrentaram os muito superiores – em número mas não em ânimo – exércitos persas que pretendiam invadir e dominar toda a Grécia. Narrativamente e estilisticamente, «300», o filme, é muito fiel a «300», o livro. Este, editado originalmente em 1999 pela Dark Horse Comics e que viria a receber, entre outros, o Prémio Will Eisner, o mais importante da BD atribuído nos EUA, está dividido em cinco capítulos: «Honra», «Dever», «Glória», «Combate» e «Vitória». Nele assistimos ao início, crescendo, desenlace, apogeu e epílogo do confronto entre os soldados de Leónidas e os de Xerxes – simbolizando igualmente um conflito de costumes, de culturas, de civilizações.
À partida poder-se-ia pensar que esta história quase lendária tirada da antiguidade clássica europeia nada teria a ver com o perfil e as preferências de um visionário contemporâneo norte-americano. Porém, e pensando bem, tem tudo a ver: os homens que se sacrificaram na Batalha das Termópilas são como que os «antepassados distantes», primordiais, de muitas ou mesmo de quase todas as personagens – sofredoras, estóicas, «espartanas»! - que Frank Miller foi criando (ou recriando) ao longo de uma carreira com mais de 30 anos.
O que distingue fundamentalmente o trabalho dele do de muitos outros artistas e autores de banda desenhada é o seu carácter fortemente - talvez mesmo brutalmente - emocional dos seus desenhos e das suas histórias. Miller preocupa-se menos com a «perfeição» das figuras e dos cenários e mais com os estados de espírito – e de alma – que os traços, só na aparência muitas vezes grosseiros e básicos, denunciam. Os seus personagens vão invariavelmente até ao mais fundo do desespero e da degradação para, uma vez aí chegados, ganharem ânimo, recuperarem, «ressuscitarem», e nós sempre com eles, acompanhando-os nessas viagens mais interiores do que exteriores, vertiginosas e estonteantes.
Revelando a influência que sofreu do cinema e da literatura «noir», Frank Miller faz dos seus livros autênticos argumentos cinematográficos, esmerando-se – em particular nas sequências de acção, tensão e violência – em mostrar todos os degraus, todos os passos, todas as fases do movimento interior e exterior das personagens. Miller faz «banda desenhada existencialista». Nele todos os pormenores contam, todos os detalhes podem assumir protagonismo, em especial os olhos, as bocas e as mãos de homens e de mulheres. As pranchas de Frank Miller são autênticos «story-boards» cinematográficos, onde as cores e tons escuros, e mesmo o simples e clássico preto e branco, dominam.
Estas características, claro, estão presentes em «300». E, em maior ou menor grau, podem ser encontradas também em praticamente todas as suas outras obras – e, de certa forma, corporizadas nas suas personagens principais: um advogado cego com poderes especiais - Matt Murdock, o Daredevil, ou Demolidor; um samurai caído em desonra que renasce numa Nova Iorque de um futuro orwelliano - «Ronin»; um milionário envelhecido com uma identidade secreta, uma vida dupla enquanto super-herói e vigilante, que encontra forças para voltar a lutar e a acreditar - Bruce Wayne, Batman, em «The Dark Knight Returns», «The Dark Knight Strikes Again», e ainda em «Batman: Year One», este com David Mazzucchelli, e «Spawn vs. Batman», este com Todd McFarlane; uma jovem afro-americana que saiu da miséria para se transformar num soldado de elite - Martha Washington em «Give Me Liberty» e nas sequelas «… Goes to War» e «… Saves the World», personagem e livros feitos em conjunto com Dave Gibbons; Nixon, um colector de impostos – ou seria Seltz, um investigador de uma seguradora – algo… mecanizado em «Hard Boiled», concepção em parceria com Geof Darrow; as figuras sem eira nem beira que povoam as ruas degradadas, física e moralmente, da série «Sin City» (o livro inicial mais «A Dame to Kill For», «The Big Fat Kill», «That Yellow Bastard», «Family Values», «Booze, Broads and Bullets» e «Hell and Back»), heranças incontornáveis de Dashiel Hammett, Raymond Chandler e Mickey Spillane; enfim, a sua criação mais conhecida, a misteriosa Elektra - «estrela convidada» em vários episódios de Daredevil e «estrela principal» dos livros «Elektra Assassin» (feito com Bill Sienkiewicz) e «Elektra Lives Again». Tal como o rei espartano Leónidas, todos eles fazem lembrar anjos. Anjos vingadores. Que vão castigar total e impiedosamente aqueles que se desviaram irremediavelmente do caminho do Bem e da Justiça, aqueles que não aceitam a supremacia do Amor e da Decência.
Outra dos talentos mais notáveis de Frank Miller é a sua capacidade para se apropriar de (grandes) personagens criadas por outros e de as tornar suas, renovando-as, «reiniciando-as», dando-lhes um novo dinamismo e até por vezes uma nova personalidade. São disso exemplos, obviamente, Batman (criado por Bob Kane), Wolverine, Daredevil (por Stan Lee) e Robocop (Edward Neumeier) – FM escreveu os filmes 2 e 3 da saga do polícia ciborgue, meio homem/meio máquina e ainda uma série de livros de BD com aquele herói metalizado. Frank Miller inscreve-se, pois, numa certa tradição «clássica» americana, revisitada, revista, aumentada e muito mais violenta, marcada indelevelmente pela moral religiosa, protestante, tão tipicamente norte-americana. Em última análise, com Miller não tanto regressamos ao Velho Oeste como entramos, isso sim, num Novo Oeste. Mesmo quando sopram ventos – e influências - do Este, do Oriente, é sempre o Oeste, o Ocidente, que está em foco. Era uma vez… e nem todos viveram felizes para sempre.
Octávio dos Santos
Artigo publicado no jornal Público Nº 6216, 2007/4/6 (com o título «Os anjos vingadores de Frank Miller)
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