Não sei se me fiz entender!

Muitas vezes somos vistos como tal. Não sei se me fiz entender. Talvez a forma como o sugeri nos faça esbarrar na velha questão de que as palavras são como que umas autênticas bombas, pois se bem aplicadas nos levam ao deleite, se mal aplicadas podem levar-nos ao holocausto das ideias em que se traduzem as guerras. E as palavras são tantas! E tão poucas para exprimir tantas ideias, e tantas para esconder o que não deviam. Falsas o suficiente para nos fazer crer o que não somos, verdadeiras o suficiente para nos revelar o que não querermos. Ainda assim, ofusca-me a ideia de que um dia poderei escrever uma carta a mim próprio e que essa carta, que um dia de surpresa receberei, me diga exactamente aquilo que preciso de ler. De modo a evitar algum excesso, ou para o cometer. Quando falo em excesso o leitor poeta pensa logo no suicídio; o leitor banal em alguma banalidade, se calhar a de andar a alta velocidade num descapotável com alguma Palmela Malhada e mamalhuda a sussurrar-lhe ao ouvido: - Querido és mesmo inteligente! Querido és tão lindo! Querido és mesmo afoito! Ainda assim, é esse o excesso que o banal quer cometer. Um leitor mais excessivo, pensará logo em algum excesso, que poderá passar pelo seu designo único de alimentar todas as crianças pobres do mundo e se calhar até de Marte, ou a ideia de comprar uma arma entrar numa qualquer escola e matar uns quantos ranhosos que merecem morrer, apenas porque lhe apetece premir o gatilho. Claro que a ideia de os ver aos gritos a pedir perdão pelo facto de existirem e se de prostrarem perante o deus da caça, neste caso de alunos indisciplinados, o deixa de extasiado, vaidoso e importante. Foram esses os excessos que conheceu, foram esses que lhe ensinaram, são desses mesmos excessos que não se consegue libertar. Mas o que poderia dizer uma carta que eu escreveria a mim mesmo? Reflectiria certamente um estado de espírito passado, não melhor ou pior, mas certamente diferente, pois tinha menos consciência do tempo, hoje tenho mais consciência de que tenho menos tempo para perder a pensar que tenho consciência do tempo que não tenho. 

Ass. O “A”

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