Música no Coração

Desde sempre fui considerado um “O” problemático. Em criança as pessoas, professores e afins, diziam a meus pais, sim porque também os estive, que era um “Ózinho” muito controverso. Nada me colocava nos eixos, nem umas valentes palmadas, cinto ou castigos, até porque sempre que estes sucediam, aqui o vosso não amigo, ia por sua conta e risco à esquadra local denunciar os meus progenitores, ainda me lembro como se fosse hoje uma das vezes em que lá fui:

            - Boa tarde Senhor Guarda!

            - Boa tarde linda criança (a linda criança era eu), em que posso ajudá-la? O seu gatinho está em alguma árvore é? (era esse o crime mais comum nesses tempos, alguns gatos ao que sei ainda estão sob a medida de coacção, prisão preventiva por esses factos).

- Olhe Sr. Guarda olhe o que os meus pais me fizeram. (exibi umas marcas feitas com baton, carvão e esferográficas, elaboradas aqui pelo “O”, garanto que o aspecto daquilo era tal que ninguém se atrevia a tocar-me para verificar se era ou não verdadeiro)

            - Pobre criança, como é que são eles capazes? O que fizeste para merecer tamanha sova?

            - Sr. Guarda, passei perto de uma Senhora velhinha muito simpática que tem um lenço azul às bolinhas amarelas na cabeça?

            - Umas bolinhas pequenas?

            - Sim!

            - Mas essa Senhora é a minha mãe! (como seu eu não soubesse) O que lhe fizeste catraio?

            - Eu ajudei a Senhora sua mãe a levar a compras para casa, isso fez-me atrasar em 17 segundos a minha chegada a casa, pois os meus pais exigem que eu às 18 esteja em casa, e pronto, levei com este tratamento que o Sr. Guarda está a ver! (aproveitando eu para baixar a camisola).

            - Isso não pode ser! Os seus pais têm que ser chamados atenção pelas autoridades!

            - Pois têm! E para que o Sr. Guarda instrua o processo, até tenho aqui umas fotos antigas para ver que eles nem de comer me dão! (eram umas montagens de fotos de alguns desgraçados com a minha cabeça que fiz lá no laboratório do Matos, o fotografo da zona).

            E lá foram os meus pais presos, a sua pena foi proporcional ao meu aumento de peso, pois a minha avó, enquanto detidos estiveram, não se coibia em encher-me de gelados que tão bem faziam a um menino que andava emocionalmente desequilibrado.

            Até que, eles saíram e contra atacaram.

Recorreram aos serviços de um profissional, que por acaso era um ex- KGB e CIA, que lhes disse:

            - Esse Ózinho é do pior, mas tenho bom remédio para ele, vocês fazem assim…(depois sussurrou-lhes aos ouvidos com o célebre…”bzzzz” …”bzzzz “).

            Mais tarde descobri que esse: bzzz…bzzz…queria dizer MÚSICA NO CORAÇÂO!

            Ou seja, após obrigarem-me a visionar esse filme maldito, diziam:

            - Ózito, senão fizeres os trabalhos de casa á sabes vamos ver a música no coração.

            - Ózito, senão comeres a sopa vamos ver a música no coração.

            E por aí adiante, para mim aquilo era pior que o papão e que o polícia, era um terror autêntico, tive que ver o raio do filme mais de cinco vezes. Guantanamo ao pé de aquilo é um Oásis!

            Alias deixei de estudar (eu que já frequentava o ano propedêutico) e saí de casa com sete anos para ir trabalhar para Lisboa, por causa daquelas frequentes ameaças, pelo que assim lá vim eu da terra em cima de uma burra para Lisboa. (quer dizer não foi bem assim, mas vocês não precisam de saber toda a verdade).

            Tudo isto para enterrar aquelas imagens e aqueles sons do coração. Até que, a minha mulher descobriu esse segredo maldito que pensava eu estar enterrado.

            Ontem disse-me assim: - Tu que és o maior anormal à face da terra, que não fazes nada, não serves para nada, és o pior marido que existe no mundo, nunca me ajudas a fazer nada, só desarrumas, etc…etc…etc. e passadas não mais do que 3 horas, por fim disse-me:

            - Vê lá se vestes o fato dos casamentos, baptizados e funerais para logo irmos a um sítio, que é uma surpresa que te faço!

            - Está bem amor!

            - E vê se fazes um nó de gravata como deve de ser, porque não sabes fazer nada de jeito, não serves para nada, nem ao menos um nó de gravata sabes fazer e blá..blá…blá…a que se ajuntou um etc…etc…etc… e depois mais um blá e tal e, para terminar, mais um etc e tal.

            - Sim amor!

            O destino era o Politeama, e assim que cheguei fui recebido pelo Filipe La “Fera” e tudo, depois foi o que se sabe. Enfim mais do mesmo, desta vez cantado em português Mas sabem que mais?

            Até cantarolei…

            E tenho andado nos eixos, como há muito tempo não andava.

P.S.

Não digam a ninguém que este text”O” é meu…

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *