Uma carta à Europa-América

Na sequência do meu artigo «Por uma nova literatura», que (re)publiquei no Esquinas no passado dia 9 de Setembro (obrigado, Alexandre, pelo simpático comentário!), decidi dar a conhecer agora, aos colegas e aos visitantes deste nosso espaço, uma mensagem que enviei há dois anos às Publicações Europa-América depois de esta editora ter recusado o meu livro «Espíritos das Luzes».
Devo esclarecer que, nos mais de 20 anos que levo de «bater à porta» das editoras, reacções como a que transcrevo em baixo foram raras. É certo que, nessa «demanda», já encontrei de tudo. Há as que levam muito tempo a responder e as que levam muito pouco; há outras que nem respondem; a maioria formata as suas respostas pela fórmula habitual «não se enquadra na nossa programação» ou coisa parecida (como a que está na origem do texto abaixo, mas que, contudo, tem um contexto…diferente). Porém, ocasionalmente, apanhamos reacções verdadeiramente insólitas. Exemplo: a «responsável» por uma editorazeca «desalmada» rejeitou um dos meus livros de poesia porque – disse-mo histericamente, e talvez «azul», pelo telefone – eu queria ser (outro) Alexandre O’Neil! Eu, que nunca li um livro dele, apenas alguns poemas soltos em jornais e revistas ou ouvidos na televisão! (E qual seria o problema de o tomar como modelo? Até parece que nunca ninguém fez algo do género!) Outro exemplo: uma representante de outra editora que rejeitou o «Espíritos das Luzes» justificou a decisão com o «facto» de, supostamente, todos os tipos de ficção científica e fantástico já terem… «presença» naquela – ou seja, os «lugares» já estavam todos ocupados! É verdade, a criação cultural por vezes também é contaminada pela típica mesquinhez burocrática!
Isto para não falar da outra editora, que não tem «horizontes» muito largos, que também rejeitou o «Espíritos das Luzes» (depois de ter prometido publicá-lo!) por causa do seu sexto capítulo ser… demasiado obsceno – é construído principalmente com base nos famosos poemas pornográficos do Bocage. Grande feito: consegui, 200 anos depois, que Elmano Sadino fosse (novamente) censurado!
Foi por estas e por outras que, confesso, não me encontrava particularmente bem disposto naquela altura. Noutras ocasiões até passaria «por cima» de parvoíces como esta, mas… não aguentei, não resisti. Leiam e perceberão.

«Caro Francisco Pedro Lyon de Castro:
A 23 de Novembro último recebi uma mensagem de correio electrónico assinada por si. Esta semana recebi outra mensagem assinada por si, desta vez em correio «normal», convidando-me a, mais uma vez, encomendar e receber, via postal, livros da Publicações Europa-América para o Natal.
Porém, «lamento» muito «desiludi-lo», mas, tal como você não quis publicar o meu livro «Espíritos das Luzes», eu também não quero, e não vou, desta vez, comprar os seus.
E porque é que não quis o meu livro? Segundo a sua primeira mensagem, é por aquele «não se enquadrar na nossa (vossa) linha editorial». Trata-se de uma «justificação» que só pode ser considerada uma anedota – sem graça nenhuma – porque, consultando o vosso catálogo, uma pergunta impõe-se: há por acaso alguma coisa que não se enquadre na vossa linha editorial?
O meu livro «Espíritos das Luzes» é muito provavelmente a obra mais importante que eu jamais escreverei; um projecto de muitos anos, trata-se de uma fantasia de ficção científica e fantástico baseada em factos e figuras reais do século XVIII português; tentei – e consegui – tê-lo pronto em 2005 porque neste ano se assinalava, entre outras efemérides relativas àquele período, os 250 anos do Terramoto de Lisboa e os 200 anos da morte de Bocage; os muitos eventos sobre estes temas que previsivelmente ocorreriam – e ocorreram – poderiam constituir, directa ou indirectamente, meios de divulgação, de promoção, do meu livro; tudo isto, e mais, estava numa carta que escrevi e dirigi concreta e especificamente à PEA, no último Verão, acompanhando o original que vos foi enviado… mas sem resultado (positivo), como soube há um mês.
Tenho de me «resignar», porque, afinal, a minha obra não tem os «elevados» padrões de qualidade e de relevância evidentes em trabalhos como «O Filho do Homem que Trincou o Gato», «Sudoku Horrível» e «Confidências no Cabeleireiro», que o senhor salienta na sua carta da campanha do Natal, ou ainda de outros como «Mais de 112 Receitas com Tofu», «Poções Mágicas» e – o meu «preferido» - «Segredos Sexuais das Lésbicas Contados aos Homens». Estes sim, enquadram-se na «linha editorial» - ou «albergue espanhol»? - da Europa-América.
Agora falando sério, o que acontece é que a generalidade das editoras portuguesas, em que a sua se insere, são ou demasiado hipócritas ou demasiado incompetentes: hipócritas porque se escondem atrás de desculpas estúpidas de «linha editorial» ou de «programação» em vez de afirmarem, de assumirem, claramente, preto no branco, que não gostaram de – ou que não quiseram ler! – uma determinada obra; incompetentes porque nunca seriam capazes de reconhecer um livro inovador e de alto potencial mesmo que ele lhes fosse enfiado pela garganta abaixo!
Ou então, o que é mais provável, eu não tenho a característica que actualmente é indispensável para se conseguir ter, em Portugal, uma carreira literária de sucesso: não sou uma pessoa conhecida da televisão! Na verdade, não sou apresentador, comentador, actor, participante num concurso televisivo, não sou jogador ou treinador de futebol, «stripper», prostituto, político, não sou um criminoso acusado, julgado e condenado. E também não sou maçon ou membro da Opus Dei – nem da Opus Gay. Paciência!
Apesar de todos estes «defeitos», permito-me desejar-lhe um bom Natal, com muitas prendas… livros. Bons livros. Isto é, que não sejam da Europa-América!»

Em conclusão, resta-me acrescentar que, depois de ter enviado esta mensagem, nunca mais recebi qualquer carta daquela editora a pedir-me que comprasse os seus… produtos. Será que ficaram zangados? Não que isso me preocupe muito, claro… OdS

Comments 6

  1. De Raspão wrote:

    Delicioso…mas nada disso me admira :) A editora em questão é prolixa em atitudes pouco dignas. Os livros da mesma são desconexos porque traduzidos por várias pessoas, capitulo a capitulo, uma vez que cada um é enviado como “prova” a vários tradutores….para serem traduzidos gratuitamente. Adivinhe porque não recebo catálogo…A culpa é nossa. Exigimos atitudes correctas a quem não as sabe, não as quer ter. Riamos, pois…

    Posted 06 Dez 2007 at 1:01
  2. admin wrote:

    Grande Octávio!… eu já te tinha em grande consideração. Após este texto ainda mais. Tenho orgulho em ser teu amigo.

    Um abraço
    Atmosphere

    Posted 06 Dez 2007 at 23:13
  3. ajuncaodobem wrote:

    Eles têm toda a razão meu querido Octávio. Estás aqui para outras aventuras e melhores andanças. Europa-América não ficaria bem na história da tua vida….francamente. Mereces bem melhor!!!

    Abraço

    Alexandre

    Posted 08 Dez 2007 at 22:41
  4. A Anti-Esquinas wrote:

    Sr. Quinas, não conheço a sua obra, mas não substime os «Segredos Sexuais das Lésbicas Contados aos Homens». Pois é vera-efígie da nossa sociedade!

    Posted 18 Dez 2007 at 23:47
  5. JP Aires wrote:

    Amigo Otávio:

    Esse teu humor corrosivo ainda vai ter de exibir licença de uso e porte de arma…

    É letal!!!

    Um grande abraço

    JP Aires

    Posted 30 Dez 2007 at 2:18
  6. JP Aires wrote:

    Digo: Octávio!

    Perdoa-me mas só depois de largar a “posta” é que me apercebi do erro.

    Outro abraço!

    JPA

    Posted 30 Dez 2007 at 2:20

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