E o nome do novo aeroporto de Lisboa deve ser…

… Na minha opinião… Humberto Delgado. Aeroporto Internacional de Lisboa Humberto Delgado. Não só por o «General sem medo» ter sido uma das pessoas mais marcantes, no campo da política, da História de Portugal do século XX; também por ter sido uma das figuras mais influentes no processo de desenvolvimento e evolução da aviação em Portugal, tanto militar como civil.
O novo aeroporto deve ser, obviamente, em Alcochete, que oferece todas as vantagens que a Ota não tem. Além de que está junto ao rio Tejo, que Humberto Delgado tão bem conheceu quando, ainda muito jovem, depois da Primeira Guerra Mundial, veio de Torres Novas com a família para residir em Alverca do Ribatejo, em cujo Parque de Material Aeronáutico (antecessor das OGMA) o pai exerceu funções e onde, na base aérea contígua, ele próprio receberia formação e ficaria, brevemente, colocado.
Em 1928 bateu um recorde de voo nocturno. A partir de 1941 colaborou decisivamente, em especial através da recolha e entrega de informações, nas negociações com os Aliados para a construção e utilização, por aqueles, da base aérea das Lages – pelo que viria a receber de Londres um (grande) elogio oficial. Em 1944 assume a direcção do Secretariado da Aeronáutica Civil, e é neste cargo que inicia o processo que levará à fundação, no ano seguinte, dos Transportes Aéreos Portugueses – tendo-se deslocado aos Estados Unidos da América para adquirir os primeiros aviões, e a Inglaterra e a Espanha para providenciar a formação dos primeiros pilotos. O país vizinho será, aliás, em Setembro de 1946, o destino da primeira carreira regular internacional da TAP. Porém, o grande feito inicial da nova companhia aérea foi a viagem entre Portugal e Moçambique, com passagem por Angola. Aos comandos de um Douglas DC-3, Humberto Delgado descolou de Lisboa a 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1946 e aterrou em Lourenço Marques (actual Maputo) a 6 de Janeiro de 1947 depois de uma escala em Luanda. Em 1952, já general, parte para uma estadia de cinco anos nos EUA após ser nomeado adido militar na Embaixada de Portugal em Washington e representante do nosso país na NATO; lá é agraciado como piloto honorário da Força Aérea dos Estados Unidos.
A personalidade e o percurso de Humberto Delgado poderiam servir de ilustração simbólica, não só para um aeroporto em si, mas também para o processo de construção do novo aeroporto de Lisboa. Sempre orgulhosamente português e agarrado à terra natal, soube igualmente ser cosmopolita e abrir-se às (boas) influências do estrangeiro. Pautou a sua vida pelo permanente aperfeiçoamento, pela eficiência, pelo rigor, pela excelência. E pela honra. No início foi um «peão», diligente e polivalente, bem intencionado mas manipulado, do autoritarismo obscurantista; acumulou coragem e sabedoria para mudar de rumo, e tornou-se um «rei», abrangente e admirado, pela democracia iluminadora. No final, ganhou as suas «asas». Que estas nos protejam quando voarmos. De e para um aeroporto com o seu nome, mas não só.

Octávio dos Santos

Hoje, 15 de Maio de 2008, celebra-se mais um aniversário – o 102º – do nascimento de Humberto Delgado. E neste ano assinalam-se também os 50 passados sobre a eleição que o «General sem Medo» ganhou e que Salazar roubou.

Publicado no jornal Expresso Nº 1827, 2007/11/3 (com o título «Que nome para o aeroporto?»)

Comments 1

  1. zeloureiro wrote:

    Boa Dr. Otha. Do belo!
    Não o sabia colaborador do expresso.
    abç
    z

    Posted 15 Mai 2008 at 22:53

Post a Comment

Your email is never published nor shared. Required fields are marked *