A autora do livro do Rafa é uma amiga. Este é o mail que lhe mandei.
Como está louvaina? como estás tu?
No mesmo dia em que te telefonei acabei o livro.
Uma viagem coimbra-lx ida e volta, foi o suficiente para o ler.
O livro está a fazer uma bela montra na livraria da UA.
Devorei-o de um só sorvo. E depois, ia pensando no rapaz, e não me atrevia a escrever-te sobre ele.
O que é que acho dele? E do livro todo?
O Rafa é um excelente miúdo. É uma qualidade que lhe é intrínseca. Vem-lhe do âmago. Nesta geração controversa, que tem suscitado “n” debates e a quem alguém já chamou “rasca” e “à rasca”, ele destaca-se muito, muito pela sua maneira de ser.
É um rapaz tímido, irresistível, pela sua densidade psicológica e pela atitude constantemente reflexiva. É um deleite assistir à análise constante que faz sobre tudo e todos.
É através da leitura do pensamento do Rafa que nos vamos apercebendo das suas angústias e dos seus anseios. E também das suas contradições. É inseguro e inocente, mas tem a responsabilidade imensa de olhar pelas irmãs.
Critica a educação e as boas maneiras “de ontem” do pai e afinal põe-nas em prática com perícia.
Curioso o Rafa! Tão ingénuo que nem se apercebe de certas realidades que decerto o rodeiam: o Rafa é um rapaz da sua época e ao mesmo tempo não parece um rapaz deste tempo. A sua ingenuidade coloca-o a salvo de muitos dissabores. O segredo da sua imaginação fértil fá-lo distrair-se do mundo e ver tudo destilado pelo filtro da sua inocência e higiene mental intocada.
É interessante assistir a esta atitude introspectiva e ao exame minucioso que faz do que o rodeia. Não menos fascinante é a capacidade que tem de se estudar a si mesmo e de assertivamente saber quais são os seus pontos fortes e quais são as suas limitações, em exames metacognitivos aos quais assistimos com deleite. Exemplos? Apesar da sua imaginação fértil, não é capaz de desenvolver.
A sua visão sobre o mundo dos adultos dá que pensar. As constantes arrelias com mãe, aquilo de que a culpa e acusa, numa atitude mais inflexível do que a sua bonomia deixaria supor, a ida ao psicólogo, o fascínio que a namorada do pai exerce sobre ele por o tratar de igual para igual… Muito mais haveria a dizer sobre este livro, escrito com mestria, num estilo completamente diferente de outros registos utilizados em livros para outros públicos (”o desenhador”) mas onde é abordado, com igual proficiência, o quotidiano dos adolescentes deste início de triénio, com as suas dúvidas e inquietudes.
Fica o resto para a descoberta de cada um na leitura das páginas onde o Rafa nos conta as suas “coisas” em jeito de confidência.
Parece que à medida que fui escrevendo fui mudando de registo, também eu.
Apesar deste final quase tipo critica jornalística, foi exactamente o que senti e o que me ocorreu dizer. Também agora escrevi duma vez. Tal e qual como li o livro.
beijinhos tantos z
Comments 1
‘Querida Zé’,
Posted 03 Jun 2008 at 22:34 ¶(…)
Falaste do meu livro e eu senti-me compreendida. Zé, a interpretação que fazes do meu livro, analisando o Rafa, mostra-me um espelho onde reconheço as minhas intenções com este livro.
Muitíssimo obrigada pelo teu generoso email. Fico feliz que tenhas apreciado o livro e que ele te tenha suscitado estes pensamentos tão inteligentes e eloquentes.
Quem me dera que tivesses um ’sítio’ para publicar este email tal como o escreveste para mim!
(…)
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