I – INTRÓITO
O Abutre (por Franz Kafka)[1]Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – Disse eu. — Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora? — Não sei lhe dizer – respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa possível. O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue. 1– Uma vez conhecedores da factologia dos presentes autos e a que a estes aproveita, mas vertida no processo conhecido por “Casa Pia”, é impossível não estabelecer o paralelismo entre o conto, supra transcrito, sublimemente escrito por Franz Kafka e a vivência de Ricardo XXXXXXXXX, arguido nos presentes autos,
2 – Assim como de XXXXXXXXXXX, XXXXXXXXXXX, XXXXXXXXXX, XXXXXXXXXX, XXXXXXXXX e de XXXXXXXXXXXXX;
3 – Todos eles vítimas no, vulgarmente denominado “Processo Casa Pia”, mas também eles arguidos, tal como o Ricardo, em múltiplos processos, propostos, pelo aqui Assistente, ou por outros, que como ele, tentam junto da opinião pública, quem sabe, por exaustão, lavar a face, não porque tentam apurar a verdade, a mais ímpia verdade da vida daqueles jovens, mas antes, porque a todo o custo tentam cobrir-lhes seu nome com lama impura, de modo a que, por justaposição, pareça à opinião pública, que são estes os tratantes, aqueles que na verdade são os verdadeiros arguidos, são as únicas vítimas de um grotesco maquiavelismo, que até hoje nunca teve cara. Nem terá. Constituindo antes, o mencionado processo assim como os processos colaterais àquele, como o presente, com que foram brindadas as verdadeiras Vítimas, sem qualquer dúvida aqueles que até à presente data, mais vergonha e vexame assolaram Portugal.
[1] “Algumas Obsessões” – Fabrício – Revista TscTscTsc – disponível em http://mitglied.lycos.de/
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