Entrou na recepção com o seu melhor vestido.
A estrela da companhia era tão só ela.
Sem devaneios de natureza alguma, entrou na sala como sempre entrara.
Colhendo os seus trunfos sem qualquer tipo de apupos como sempre o fizera, assentindo aqui e ali, aos perecíveis, doses rigorosas de charme, claro que q.b., como sempre o fizera.
Espantou a maior parte, seduziu os outros restantes. Estar contíguo a si era o momento que consagrava glória ao evento, mas conseguir um isolado instante da sua ponderação ou alguma da sua cogitação residual, elevava esse servo do seu mísero reparo, a quase figura da noite.
Enfim, que notável jornada, mais uma noite perfeita de uma vida, sem hesitação, invejável.
Mas infelizmente para mim, nessa mesma noite de devaneio esperava-lhe uma terrível ocorrência.
Quase que por acidente os seus olhos detiveram-se nos meus, que normalmente são inexpressivos como que inócuos, pré-elaborados não para se expressar tão só e apenas para agradar; mas ao que parece, de vez em quando, segundo o que já me relataram, irradiam a verdade do que processam.
Continuando a deter-se nos meus olhos, efectuou-me com o seu, agora esgazeado olhar, um pedido de clemência.
Tentei aceder, juro que tentei, mas nem o meu mais puro e espremido altruísmo conseguiu abafar o reflexo de absoluta consciência da sua dura realidade que, involuntária, mas incisivamente foi projectado pelo meu olhar.
Ao que sei nunca mais foi vista em festa alguma, nem tão pouco em festa nenhuma.
Pelo que desde então em todas as ocasiões uso sempre óculos escuros, do levantar ao deitar, mas claro, não espelhados, não se vá repetir o assombro!
Este pequeno relato não tem qualquer moralidade que se lhe extraia; nem é tão pouco uma triste história, pois é facto que desde então, não mais deixei de ter trocos, em farta abundância, nos meus bolsos.
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