A Sentença.

 

O indivíduo, moreno com o cabelo oxigenado aparentava ter cerca de uns 30 anos, vestia umas calças de ganga curtas, até cerca de metade da perna, a t-shirt preta não tinha mangas, mas também não era de alças, e claro que tinha estampadas em letras garrafais a frase: “fuck-off”. Até ao momento nada abonava em favor dele. A pena que eu já lhe tida ditado mantinha-se, ainda assim, achei que seria melhor acercar-me da justeza da mesma. Quando pediu o café ao Senhor que estava atrás do balcão aviá-los, tinha perdido a hipótese de perante mim se redimir, pelo menos parcialmente:            

- Chefe, quero um café à italiana. Não quero um café curto!           

Quando se sentou a beber o café, puxou de um cigarro e fumou na zona interdita a fumadores. Quando uma senhora lhe chamou atenção para esse pequeno grande detalhe:           

- Cota, eu já cá estava! Está mal? Vá para outro lado!           

Enfim não havia redenção alguma naquele tipo. Socialmente inadaptado, socialmente dispensável. Pessoalmente repugnante.           

Antes que o tipo se levantasse, eu tinha que confirmar se de facto era ele o dono do Subaru, para isso dei uma pequena volta no parque. Lá estava o 23 - CA – 37 azulinho. O tipo reparou que eu estava a reparar no carro dele, ordinariamente fez o seguinte comentário: - É muita giro mas não está à venda!           

 - Olhe que é uma pena – disse-lhe com uma expressão, falsa, de plena inveja – é lindo!

É o carro dos meus sonhos! Quantos cavalos tem?           

 - Vê-se que percebes de carros!           

 Ele tratou-me sem me conhecer na primeira pessoa, este tipo não tem qualquer hipótese. Ainda assim dou-lhe mais uma oportunidade.

- Pá isto anda mais que os Porches. Ainda por cima está todo quitado, tem mais de 300 chavalos.           

- E consome muito?           

- Se consome, este burro não anda a palha anda a gasolina e da melhor, daquela especial e para lhe dar mais uns cavalitos ainda lhe ponho uns aditivos.           

- E para que quer um carro tão veloz?           

- Você é da bófia?           

- Não de todo.           

- Então o que faz?           

- Sou Advogado.           

- Vocês ainda são piores que eu. Já lidei com muitos, é só escumalha, só pensam em dinheiro e estão-se a cagar se um gajo vai dentro ou não.            

- Enfim isso não me diz respeito. Apenas lhe invejo a viatura que conduz. Já vi que tem um aparelho de som fantástico.           

- Vê-se que gostas mesmo disto. És um bacano não tens nada haver com os outros. Olha até me podias deixar um cartão para eu quando precisar de um Advogado falar contigo, pelo menos sei que gostas do que é bom.           

- Terei todo o gosto, mas gostaria de ouvir primeiro essa aparelhagem a tocar. É mesmo “Clarion”?           

- Todinho, mesmo os amplificadores que estão na mala. Manda cá um bafo!           

O fulano abriu então a porta do carro e sentou-se, ao volante, ligando a aparelhagem e colocando a tocar um tema barulhento e horroroso que me pareceu ser Def Lepard. Já gritando perguntou-me:           

- Que tal? Ganda som, não é?           

- Você para além de ter um óptimo gosto para carros tem um excelente gosto musical.            

- Pá um gajo quando nasce com gosto é assim. As garinas dizem-me o mesmo.           

 - Imagino, você tem as que quer.           

- As que quero e as que não quero. É sempre a bombar.           

- Que som magnífico, não toca mais alto?           

- Claro meu!           

O sujeito inclinou-se então para colocar o som mais alto, e eu aproveitei para olhar em redor se estava alguém a visualizar-nos. Aparentemente não estávamos a ser observados, pelo que subitamente, agarrei-lhe a cabeça e torcia com força necessária para lhe partir o pescoço, ouvindo se o rasgar de alguns nervos e articulações e talvez o estalar de um osso ou outro, pouco se ouviu porque o som do rádio tudo abafava. O tipo ficou desde logo inconsciente, ainda assim continuei a virar-lhe o pescoço até ao ponto em que a pala do chapéu que estava voltada para trás ficou voltada completamente para a frente.

            - Assim não és encadeado pelo sol minha besta! - Gritei eu.

            Desliguei o rádio. E compus-lhe o corpo. Era bastante singular a visão que tinha, a cara voltada para trás e a nuca para a frente com a pala na posição invertida, mas que agora face à torção parecia estar na posição correcta. Parecia que o tipo tinha excesso de pêlo na venta. Se tivesse na altura a máquina fotográfica tinha-lhe tirado um retrato.           

 A minha boca estava encharcada no sabor de liberdade com que nunca havia sentido anteriormente. Sentia então uma clareza de raciocínio e leveza de movimentos que então nunca havia suspeitado que fosse possível ao ser humano experimentar.            

Eles já estavam todos no carro esperando por mim, sentei-me ao volante, coloquei o cinto, ajeitei o retrovisor, e para meu espanto:           

- Manelinho, a pala do chapéu é para usar para a frente, o pai não te quer de novo ver-te assim está bem?           

- Ó pai mas poquê?           

- Para nunca te ofuscares meu filho, nunca! Promete ao papá!           

- Está bem pai, nunca mais volto a fazê-lo!

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