DISTANÁSIA

Esta minha carta de despedida é para todos. Quando digo todos digo todos mesmo, não penses que tu que por partilhares a minha amizade ou amor que és mais importante na concepção que tenho da gentes ou das pessoas ou de um qualquer arrumador que se possa encontrar na rua.

Não!

Decididamente não, e não digo isto para te fazer refrear o tendencial ímpeto triste de fazer de triste, que possas ter, por mero frete do chamado “fica bem-fazer ou dizer isto”, pela minha ausência, mas tão só e apenas pelo facto do arrumador sentir mais a falta das minhas míseras moedas que lhe matam a fome ou o vício do que tu irás sentir de mim no futuro.

Estranho não é? O imbecil que me devora as moedas por coacção centrada no meu automóvel tinha uma relação mais próxima que tu que te dizes e me chamas de amigo. Ou talvez não?

O arrumador pelo menos quantificava o meu estado de espírito pela quantidade de moedas que lhe eram transferidas sem auxílio de qualquer ATM ou NIB e com a beleza suplementar de nem sem pagar qualquer imposto pela transacção do meu bolso para o dele.

Mas tu alguma vez quantificaste o meu estado de espírito? – És um gajo porreiro, ou o gajo mais porreiro do mundo -. Era o máximo de diferenciação entre aquilo que poderia ouvir de ti. Claro que aqui ou ali também coexistia momentos de fraternidade recíprocos, especialmente quando querias partilhar a tua fortuna ou infortúnio, pena é que eu nunca tivesse tido qualquer tipo de intervenção em qualquer uma delas. Ainda assim como que fotografias de umas riquíssimas férias se tratasse, eras capaz de fazer tudo para que eu ficasse tatuado da tua comoção e dos teus chamados momentos de glória.

Aviso: Se neste momento qualquer imbecil vê neste documento uma carta prévia a um vulgar anúncio de uma requintadíssima eutanásia bem podes enxugar essas lágrimas. Digo eutanásia porque normalmente é um dos dois seres que dualmente coexistem interiormente que mata o outro por compaixão. De todo não creio acreditar no unipessoal e ridículo suicídio. Pelo contrário estou num, literalmente, processo oposto, sim encontro-me num processo de Distanásia. E por esse simples facto apetece-me aproveitar todas as cambiantes que a vida pode oferecer, desde que não vos tenha por perto. Tantos amigos, tanta conversa e não tive um que me alertasse para os reais perigos da vida. E ajuda era o que eu mais precisava, pois a minha deficiência era completamente notória, infelizmente não é uma insuficiência clinicamente quantificável, pelo que nunca tive qualquer benefício fiscal com a mesma.  

Mas facto é, que vou levar a minha distanásia para longe de vós, pelo que quando virem aquela, a tal onda gigante na Austrália a formar o tubo perfeito e um deslizante e sorridente surfista lá dentro a olhar para as paredes cheias de quadros com motivos, como não poderia deixar de ser, náuticos, bem poderei ser eu.

Assim como a beber um chá quente no Deserto Kalahari a olhar para o nascer do sol mais belo do mundo, também o poderei fazer no alto do Monte Tubkal, ou até do Farol do Bugio. Se calhar até poderei estar a varrer o chão num qualquer bar de subúrbio de segunda categoria de uma qualquer cidade europeia mas ainda assim com Distanásia suficiente para conceder e mercadejar.

That’s all folks.

Comments 1

  1. dulce santos wrote:

    por vezes perdemo-nos na vida, para nos encontrarmos mais tarde.
    a vida, devora-nos. deviamos ser nós a devorar a vida.
    a coragem de lutar contra a maré da dita normalidade ou daquilo que é chamado o politicamente correcto,sucesso na vida, não é ter mais é ter menos.
    temos sim mais uma cadeia de elos que nos prendem, e nos afastam da verdadeira vida.
    less is more.

    Posted 12 Mai 2009 at 22:20

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