A paz vem até mim…Até sei que se me aguentar eu vou assistir à tua chegada! Mas por favor vem depressa.É porque que se demoras a única paz que vou encontrar é a paz do céu e essa ainda não a quero. Bem receio que ainda tenho muito tempo para a demolhar eternamente.
Estas eram as palavras que o Sr. J. proferia com a cabeça junto dos carris de ferro junto a uma qualquer estação da C.P. Pois esperava ele a chegada do seu comboio, estava munido de bilhete e tudo, e havia colocado o seu ouvido num dos quatro carris que compunham as duas linhas que serviam a estação, fazia-o apenas para se assegurar que o seu comboio da paz, que tanto almejava a chegada, estaria de facto aproximar-se.Mas, não passava qualquer comboio naquelas linhas, pelo menos, a três dias. Apesar do constante anuncio nos altifalantes da estação para os utentes não ultrapassarem a linha amarela. O que é facto é que a estação em alguns momentos estava aparentemente cheia de passageiros apressados, em outros tantos momentos parecia toscamente vazia, mas no geral parecia uma actividade normal de um qualquer dia com normal actividade de passageiros
em trânsito. Mas o Sr. J. não assistia à chegada do seu comboio, nem tão pouco a ele era perceptível a azafama diária dos passageiros circulantes, se é que ela existia, pois a sua realidade era tão só apenas se limitar a escutar, muito atentamente, os sons que eram propagados através da linha.E que coisas escutava? Ouvia o som do vento que batia nos carris que alinhava maravilhosas melodias não projectadas, melodias de sonho e medo, de sons surdos e abertos, alguns parecidos com melodias ecoadas pelos canos aborígenes, outros como se fossem giz a riscar um quadro, mas normalmente dedicava-se a não escutar nada.Estranhamente o Sr. J. não sentia cansaço ou angustia pela espera, nem tão pouco necessidade de reclamar do atraso. A sua atenção detinha-se apenas naqueles carris. Escutava atentamente cada um dos quatro alternadamente, pois não tinha ideia de qual a direcção do comboio que tinha decidido esperar. Esse facto destacava-o do chão de quando em quando, sempre em grande velocidade, quando efectuava a transição, pois não queria de modo algum, perder o primeiro som - anuncio da chegada comboio que ansiosamente aguardava.

Comments 2
o som que o Sr.j, espera será do tipo “pouca terra, pouca terra” ou mais “tut-tuuuuut”…
Posted 23 Jul 2010 at 15:29 ¶Sempre craitivo. Inesperado. Escrita que merece uma compilação. Este post merece estar na lista.
Posted 23 Jul 2010 at 16:50 ¶Parabéns Alexandre
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