Hoje também não foi dia em que pela manhã estriei um novo par de meias. Dia em que as minhas lancinantes unhas ao tocarem ao de leve nas virgens peúgas lhe anunciam, que a sua forma imperfeita inicial não se irá manter como tal durante muito mais tempo. De facto as minhas garras pedonais, são como o mar que desgasta e talha a formas das rochas, inovando assim a linha litoral sobranceira ao oceano, são no entanto também detentoras de enorme criatividade, uma vez que em cada utilização vão aperfeiçoando a peça, dando-lhe novos elementos acessórios, os chamados buracos, que ainda, nos dias de hoje, envergonham muita gente. Durante muito tempo pensei, tal como todos, que necessariamente o acto cortante das unhacas era um acto destrutivo, hoje penso que os orifícios criados, são como que arranjos de engenharia, de elevada precisão, retocando e adaptando às necessidades pessoais uma peça que nasceu necessariamente deficiente, que só após ser devida e cirurgicamente retocada o deixa de ser. Pois fica mais arejada e deixam de existir, os incómodos pontos de fricção, se fossem perfeitas jamais seriam toldadas com tanta eficiência pelas unhacas. Faz uns anos, existiu a tentativa de criar as peúgas perfeitas, a então marca Reebook, dava a garantia de um ano às peúgas, a mesma que se dava à época aos automóveis, independentemente da utilização que tivessem. Mas, amigos, andar com dois maços de algodão nos pés não era para todos, aliás, para tal era necessário adquirir uns ténis pelo menos dois números acima do que habitualmente se calçava. Pelo que, o que era, inicialmente, um apoio ao desporto, tornou-se, na prática, um acessório quase obrigatório no complemento da farda militar, pois de facto eram óptimas para evitar a criação de bolhas provocada pelo uso das botas, de todo meigas, que eram fornecidas, então, pelo poderoso exército português.

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