Notáveis Críticas!!!

Notáveis críticas!!!

Caros amigos, estou felicíssimo de partilhar com vocês as críticas que fizeram alguns órgãos de comunicação a um texto que publiquei em “ Esquinas.org”.

The Times

“…Provavelmente o melhor prosista vivo, pena não estar morto para se lhe prestar uma digna homenagem…”

¶¶¶¶¶ -(isto na formatação original são estrelas, no caso cinco..)

The Guardian

“…Notável, esperamos que não se voltem repetir semelhantes textos…”

¶¶¶¶¶ (idem)

 A Maria

“…supera notavelmente algumas das melhores crónicas do nosso consultório sentimental…Sem dúvida alguma recomenda-se a sua leitura…”

¶¶¶¶¶ (mais do mesmo)

Agradecendo, desde já,  o vosso inestimável apoio e o que sempre tive da Microsoft que, desde sempre, me deu a oportunidade de usar o seu processador de texto, sem me cobrar (o facto de ser involuntariamente não interessa) qualquer quantia para efeito, deixo-lhes um cheirinho do texto e o link do sítio onde foi postado.- Por favor! Sabe dizer se existe algum atraso nos comboios? Estranhamente reparou J. que o som daquelas palavras que deveriam ter ecoado naquela estação completamente vazia, cuja configuração asseguraria de certeza um belo eco, na verdade foi absorvido por algo antes mesmo de embater nas paredes, parecia-lhe que a ele não era permitido deixar qualquer memória da sua vida que perdurasse no tempo, nem mesmo o efémero tempo que leva a ecoar uma palavra.

www.esquinas.org

 

O fado do hipocondríaco

Estava no campo a passear

Para das doenças urbanas me afastar

Isto quando, uma tosse excessiva

Me coloca completamente à deriva

 

Ao Doutor fui fazer queixume

Aliás, como é meu costume

Após muitas reflexões, o Sr. Dr. decidido

Disse-me com todo o sentido

 

Que se bem que o ar do campo,

Com todo o seu encanto

É bom para os pulmões

Nele subsistem milhões

 

Senão mesmo triliões, de doenças ainda por descobrir

Ó meu Deus! Que ferida fui eu abrir?

Quando me propôs a mim mesmo permitir

Ao campo passear sem o Doutor conferir

 

Saí do consultório, cheio de formulários e receitas

Para combater as maleitas

De milhões senão mesmo triliões de indisposições

Que em mim irão edificar, suas permanentes habitações

 

Febre imensa já devo ter

E até consigo antever

O termómetro sempre a ascender

Só se detendo, mesmo, quando eu fenecer

 

Eu que nunca fui saudável

Logo tinha que fazer a jornada execrável

De ir ao campo passear

Só para apanhar bom ar

 

Sem pensar que o ar do campo,

Com todo o seu encanto

Se bem que é bom para os pulmões

Nele subsistem milhões, senão mesmo triliões,

de doenças aindaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa por descobrir!!!!!!!

 

É fadista!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Da pátria, a língua

Neste mês de Setembro de 2011, mais concretamente a 1 e a 12, devido a documentos legislativos com essas datas, assinala(ra)m-se os 100 anos de mais uma catástrofe decorrente da insurreição republicana de 5 de Outubro de 1910: a reforma ortográfica de 1911, que constituiu uma autêntica «Caixa de Pandora», o «pecado original» para todos os problemas e discussões neste âmbito que desde então se sucederam e que ainda hoje, e cada vez mais – por causa do abominável «aborto (acordo) ortográfico» de 1990 – nos atormentam.
Não serão muitos os que sabem que foi em contestação a este (agora centenário) crime contra a cultura que Fernando Pessoa escreveu que «minha pátria é a língua portuguesa». Aliás, o autor de «Mensagem» viria a criticar, com – justificada – violência verbal, todos os republicanos e todos os outros atentados, de vários tipos, que aqueles practicaram, como verdadeiros terroristas que eram, e que deixaram o país pior do que estava com a Monarquia. Mas as hordas de Afonso Costa não se «limitaram» a prender, a bater, a matar, a destruir, a censurar: genuínos extremistas e fanáticos, alteraram, mais do que muitos nomes de avenidas, largos, praças e ruas, os símbolos culturais da nação: novo hino, nova bandeira – que o poeta da Orpheu (des)classificou como «ignóbil trapo» - e… nova ortografia.
Neste último século muito se tem discutido e escrito sobre a educação em Portugal, os seus sucessos e fracassos, os seus progressos e regressões. Frequentemente ainda, fala-se do «condicionamento escolar» do Estado Novo e do elevado analfabetismo que permitiu ou até que incentivou. Porém, é raro apontar-se a culpa aos primeiros republicanos, que, preconizando uma revolução (mais uma…) no ensino no sentido da sua massificação, acabaram por fracassar, também, neste domínio. Disso uma causa é hoje indiscutível: a hostilização, através de perseguições individuais e de expropriações patrimoniais, da Igreja Católica, que dispunha de uma presença e de uma influência determinantes em toda a infra-estrutura lectiva. Mas há outra causa primordial para o nosso atraso educativo e cultural: precisamente, a reforma ortográfica de 1911, que, pelo seu radicalismo, pelas súbitas e generalizadas alterações que introduziu, pela confusão que inevitavelmente espalhou, pela inutilização (tornando-os «antiquados», «obsoletos», «ultrapassados») de tantos livros, jornais, revistas e outros materiais impressos então existentes, condicionou decisivamente… e negativamente esta área – fulcral, fundamental – nas décadas seguintes. Quem é que é capaz de provar que as sucessivas acções de «simplificação» da ortografia realizadas durante o último século, e o cada vez menor grau de exigência resultante daquelas, não foram factores de constrangimento do nosso desenvolvimento intelectual, tanto individual como colectivo?
Poder-se-ia pensar que, num momento em que o país está tão fragilizado, quer económica quer socialmente, seria evidente para o Estado que um potenciador de ainda maior insegurança como é o AO fosse cancelado ou, pelo menos, suspenso. Mas não: hoje, a mesma ameaça volta a pairar sobre nós. Já fomos penalizados e prejudicados no passado recente por vários «experimentalismos» e «vanguardismos» na aprendizagem. Nada, no entanto, que se compare com o que agora querem obrigar-nos a aceitar: os alunos do presente – bem como os seus pais e encarregados de educação – estão em risco de sofrer os efeitos devastadores da maior acção de sabotagem comunicacional da História de Portugal. A eles se pede, também, contestação, desobediência, resistência. Eu, que tenho três filhas menores de idade, irei fazer isso… por elas, por mim, por todos. E muitos, muitos mais portugueses – muita(o)s mais… Pessoas! – irão fazer o mesmo e impor a sua vontade democrática na defesa da pátria, a língua. Porque, ao contrário de 1911 e de 1945 (ano do primeiro «acordo ortográfico»… que o Brasil viria a renegar), já não estamos em ditadura. Ou será que estamos? João Malaca Casteleiro, que é tão parecido com António Oliveira Salazar, provavelmente pensa que sim. Tal como os outros partidários deste autêntico fascismo linguístico.

Octávio dos Santos

(Nota: este texto é o centésimo de minha autoria que coloco no Esquinas… e que tem a particularidade (entre outras…) de evocar Fernando Pessoa, que, como se pode ver pelo cabeçalho deste blog, a ele «preside», mesmo que em espírito.)

Foi há dez anos

«Tinha acabado de vir do almoço, passava pouco das 14 horas. Numa outra sala, perto da minha, estava um televisor ligado. Já não me lembro em que canal estava sintonizado, mas creio que se estabelecera uma ligação em directo após o embate do primeiro avião; ainda não se sabia o que acontecera, não havia certezas, mas pensava-se, dizia-se, que fora um acidente. Por pouco tempo: quando o segundo avião veio… as dúvidas dissiparam-se.» Porque o que aconteceu há dez anos nos Estados Unidos da América afectou todo o Mundo… e a mim, destaco aqui o texto que coloquei hoje no meu (outro) blog Obamatório.

“O gAnDa MaLuCo!”

Todos já foram vítimas do mesmo. Muitos dos vossos amigos, conhecidos e coisos, durante um dado período da vossa vida, ou em dado momento, normalmente de alargada imprudência, regada com abundante álcool, mimaram-vos, com a célebre frase: “Arnaldo, pá, és um ganda maluco”.

Em todos vós, eu sei pelo que passei, esse reconhecimento público da qualidade de “ganda maluco” levou a que o vosso comportamento desde então, fosse o mais desajustado possível, pois a ânsia de voltar a ouvir a mesma frase era enorme. De facto voltar a ouvir a expressão “és um ganda maluco” torna-se uma verdadeira droga, e os sujeitos acariciados uma vez com tal mimo tornam-se repentinamente verdadeiros agarrados. Primeiro contentam-se em ouvir, a referida representação, uma vez por mês, mais tarde, em alguns casos, em que a patologia já se torna demasiado grave e irreversível, querem ouvir o delicioso impropério, pelo menos, de cinco em cinco minutos, quando não continuamente.

Para tal, preconizam as brincadeiras mais estúpidas que a um ser humano é possível efectuar, deixam de pagar bilhetes nos transportes, mas só ao pé dos amigos que lhes podem efectuar o elogio, mesmo que sejam possuidores do passe social, atiram-no pela janela, o pensamento é: - Que se lixe a multa, quero é voltar a ouvir que sou um ganda maluco; baldam-se às aulas para ir fumar um cigarro, claro que roubado do maço que o descuidado “setôr” de matemática que o esqueceu em cima da secretária. Descem as escadinhas de São Vicente de skate, trotineta, ou de patins, de preferência de uma só vez; e para arrematar, a festiva bronquice,  chumba-se o ano lectivo com as piores classificações possíveis. Mais tarde, já num estado mais adulto,  sim porque o conceito de “ganda maluco também amadurece”, despejam-se copos de vinho tinto nos vestidos imaculados de noivas nervosas, depois de se fazerem as maiores asneiras na despedida de solteiro do melhor amigo, tudo isto só para o desesperado do agarrado ouvir uma vez mais: “´és um ganda maluco”.

Com a adição de anos vindouros, nos almoços e jantares de amigos, porque já ninguém voluntariamente o faz, o desesperado repete em cada memória que despeja para cima da mesa “eu era um ganda maluco”. Despejo esse anuído pelos amigos mais chegados, até ao momento em que já ninguém podendo ouvir tal diz em voz alta: “- estás maluco ou quê? Já ninguém te pode ouvir a dizer essas mxxxxs. Fxxx-se pá! Vê é se cresces, continuas a ser o mesmo cxxxxxo que eras quando tinhas doze anos. ” (peço desculpa pelo vernáculo mas os gandas malucos só assim entendem que o conjuntura não lhes é de fortuna.

                É nesse preciso momento que o “ganda maluco” desperta para uma nova vida! Ele que até então simplesmente interpretou, na perfeição, o papel que os amigos/grupo lhe deram para interpretar, estes, num só ímpeto, sem anunciar previamente, proibem-no de recordar aquelas que eram as únicas memórias estupendas que o “ganda maluco” tinha e, que até então, o faziam sentir especial.

Para os que não se suicidam de imediato ou vão vender gelados para Cabo Verde, esse é o momento em que se destapa o outro “fulano” que até então estava escondido no “ganda maluco” mas que ainda não tinha ousado dar a face. Agora é momento do tal de: “agora estou muita certinho”.  O “agora estou muita certinho” é o tipo que em tudo o que diz e que faz, fez ou irá fazer no promissório futuro certinho, acaba sempre as frases em: “agora estou muita certinho.” Por exemplo, quando fala da namorada diz: Ando às dois meses com a Anabela, como vês “agora ando muita certinho”. Quando compra os bilhetes para ir ao cinema, diz olha vamos ao cinema à noite ver o último do Silvester Stalone, como vês agora “ando muita certinho”. Nos casos mais bicudos, antes de referir o que quer que faça, fez ou fará, diz “agora ando muita certinho”, um exemplo flagrante é: “eu agora como ando muita certinho” vou às compras compra um litro de azeite, e como estou muita certinho antes de vir às compras, porque agora estou muita certinho, fui ver a acidez do azeite, porque agora estou muita certinho e não me quero enganar. Como estou muita certinho sei te dizer que acidez do mesmo que é de 0,5%.

                Ora, também ninguém pachorra para tolerar este tipo se arquétipo durante muito tempo. Pelo que, em dado dia, em dada situação, alguém vai dizer: “ O que se passa contigo pá, eras um ganda maluco e agora andas todo certinho”. Já ando preocupado contigo!

                Claro está que é precisamente nesse ápice que o desgraçado fica para sempre na merda! Normalmente casa-se e espera, ansiosamente, pela reforma!

Os Outros Pirralhos

No cume de uma montanha idílica, igualzinha ao lugar onde foi filmado a “Música do Coração” e mais tarde o fabuloso início do Inglourious Basterds de Quentin Tarentin, com o mesmo panorama, a mesma ternura tonal, a mesma frescura melodiosa. Com as suas únicas mãos dadas, brincam dois bebés, sobre uma exuberante tapeçaria vermelha, realçada ainda mais pelo fundo verde onde está implantada.

                Junto a esta tela de respigada inocência, está uma maravilhosa Senhora velhinha com aspecto nórdico e de sorriso intenso. Toda vestida de preto, inclusivamente as chuteiras que tem calçadas, o cabelo branco que se confunde com os loiros claros que ainda lhe restam apanhado, formando um proeminente carrapito. A Senhora que vai bordando um enorme naperon em crochet, divide a sua atenção entre a sua produção e as brincadeiras dos catraios. Vai dividindo a sua atenção até que reparou num brilho estranho, advindo do reflexo do sol, que se destacava dos corpos das criancinhas. Colocando de lado a sua industria, levantou-se e acercou-se dos pequenos. Reparou então que os mesmos, no lugar onde cada um deveria ter uma das mãos, encaixados de forma perfeita e permanente envergando a menina uma foice, e o menino um martelo. Que, naquele momento, ainda que involuntariamente, estavam cruzados, ao estarem a brincar sobre um ofuscante tapete vermelho, formavam de forma evidente e irrevogável o emblema do partido comunista.

                A querida Senhora velhinha, mostrou-se surpresa, como que em puro reflexo, plenamente automatizado, deu de imediato, três passos atrás, ao ponto onde estavam as crianças que era mais baixo ao da Senhora. Tirou o casaco, que se sobrepunha a uma malha azul escura cheia de estrelas brancas e baixou a saia preta que se sobrepunha a uma plissada saia vermelha e branca às riscas.

                Olhou para os bebés, deu mais três passos atrás e após, respirar fundo, como faz Cristiano Ronaldo antes de bater os livre directos, desatou a correr em direcção aos bebés, puxa a perna atrás e com imoderada violência, com a sua chuteira, acerta em cheio na cabeça do menino que após um voo de cerca de dezasseis metros, rebola pela montanha abaixo até se deixar de ver.

                O que provocou, gargalhadinhas de bebé, na menina que ainda sobre o vermelho tapete se encontrava. A aparente simpática e velhinha Senhora, olhou para a menina, puxou-a para junto do seu colo, e quando a criança se começava aninhar, a bem-parecida idosa, como se estivesse a bater um pontapé de baliza, lançou a petiza no ar, e quando estava a jeito, com o pé direito, deu-lhe um enorme pontapé no delicado rabinho, que fez arremessar a garotinha para além do que com a vista se alcança.

                Após os dois extraordinários remates, a velha Senhora atirou-se, como que a celebrar o feito, para cima do tapete vermelho, cascalhando até acabar por adormecer.

                Quanto aos pirralhos nunca mais se soube do seu paradeiro, mas sabe-se que um modesto agricultor encontrou um martelo e uma foice, que tanta falta lhe faziam, lá para os lados daquelas serranias.

A banda sonora do texto:

http://www.youtube.com/watch?v=g3KNZaaRPTs

Para «reconquistar», no Público

Na edição de hoje (Nº 7793) do jornal Público, e na página 29, está o meu artigo «Reconquistar Portugal». Um excerto: «É de perguntar se aqueles a quem foi atribuída a tarefa de “vender” o nosso país ao estrangeiro não a terão entendido de um modo… demasiado literal. Não é inevitável que para publicitar Portugal se tenha de “meter na gaveta” o amor-próprio (individual e colectivo), a noção de dignidade, o orgulho patriótico… e o sentido do ridículo. No entanto, são já demasiados os exemplos desse tipo de “conversão”.»

Octávio dos Santos

Os Pirralhos

Com as suas únicas mãos dadas, brincam dois bebés. No lugar onde cada um deveria ter a outra respectiva mão, encaixados de forma perfeita e permanente envergam uma foice um, outro um martelo. Quando as cruzam, ainda que involuntariamente, ainda mais pelo facto de estarem a brincar sobre um ofuscante tapete vermelho, humanizam, o logótipo, o símbolo inefável de um qualquer partido comunista mas não sei de que país, mas deverá ser da Gugudadalândia. De facto os petizes não verbalizam muito mais do que isso. Muito brincam os cachopos, o deslumbrante tapete vermelho onde eles brincam sem qualquer tipo de aviso torna-se também ele um activo participante na brincadeira. Enrola os pequenos de forma suave, com toques aleatórios, provocando-lhes cócegas, que se reexpedem em Gugudalensas-gargalhadas.

O tempo passa, a brincadeira acentua-se, a foice e o martelo cruzam-se tantas vezes, quantas o Oráculo previu. A profecia cumpre-se o tapete levita, as crianças nele viajam. De dia as nuvens estão ao alcance das suas mãos, de noite o céu nunca foi tão estrelado, dormem sossegadas de barriguinha para o ar no mais confortável colchão de ar que alguma vez a Criação supôs que fosse possível criar; enroladas no levitante inefável tapete, tocado na sua direcção pelos mornos ventos do levante.

Em aprimorado sigilo, lá seguiram a sua fantástica viagem, até que avistaram e foram avistadas, por enormes balões simpáticos em formas de garrafa de Coca-cola, de ténis desportivos de marcas profissionais e outros com o publicito de ordenantes  marcas de ordenadores, com maravilhosos cestos em verga pendurados. Os meninos estavam deslumbrados, afinal de contas nunca tinham visto semelhantes formas, e ao mesmo tempo tiveram noção de que não estavam sozinhos neste mundo.

Os viajantes dos magníficos balões, primeiramente gritaram em uníssono, com enorme histeria, um sentido Welcome, durável até vislumbrarem a foice e o martelo que estavam incrustados nos braços dos pirralhos. O até então descomunal Welcome, transformou-se subitamente em anárquicos mas perceptíveis apupos às crianças.

Passados não mais do que cinco minutos os balões afastaram-se, passados não mais cinco minutos desde os antecedentes, o tapete no qual viajavam aquelas inocentes crianças foi abatido por um qualquer, mas rebuscado, míssil terra-ar.

Após rápidas buscas não foram encontrados quaisquer destroços de armas de destruição massiva a bordo da caída tapeçaria, apenas os restos mortais, sob a forma de uma foice e de um martelo, dos antes alegres pirralhos.

O francês é «arcaico»!

O Embaixador de Portugal em França, Francisco Seixas da Costa, escreveu e publicou no jornal francês Les Echos, a 8 de Julho, o artigo «Les efforts du Portugal sont bien mal récompensés…», sobre a redução, pela empresa Moody’s, do «rating» da dívida pública portuguesa para o nível Ba2 (equivalente a «junk», isto é, lixo). Ele divulgou esta intervenção no seu blog Duas Ou Três Coisas, onde eu deixei o seguinte comentário:
Sinto-me no dever de expressar a minha mais «sincera» «solidariedade» ao Senhor Embaixador Francisco Seixas da Costa. Apenas posso imaginar – e levemente! – o quanto lhe terá custado escrever este artigo.
Não só pelo tema: de facto, é muito difícil, é mesmo trágico, comentar a desqualificação do país natal para a categoria «lixo» - algo que, pensando bem, representa a consequência lógica de cem anos de regime republicano (que «magnífica» maneira de encerrar as comemorações!) e em que predominaram «homens de avental» - logo, habituados a lidar com vários tipos de sujidade. Mas também, e precisamente, pela forma de o escrever: então não é que o Senhor Embaixador, emérito defensor e seguidor do «acordo ortográfico» da língua portuguesa, se vê obrigado a utilizar essa «arcaica», «obsoleta», «ultrapassada» língua francesa, em que abundam as consoantes «mudas», os acentos e ainda as vogais e as consoantes repetidas?
Sim, eu sei, são os «ossos do ofício», os «sacrifícios» que se têm de fazer quando se representa Portugal. Mas, caramba, há coisas que são de mais! Atente-se em algumas das palavras presentes no artigo do Senhor Embaixador, cada qual, acredito, uma autêntica punhalada que desferiu no seu coração luso-tropical: «atteindre», «annoncée», «nouvelles», «objectif», «effets», «accepté», «accord», «européennes», «apparu», «dette», «immédiats», «privées», «étonée», «actuelle», «années», «mettre», «meilleure», «cette», «laquelle», «effort», «ailleurs», «différente», «acteurs», «donnaient», «successives», «apporter», «ponctuelles», «elles», «restructuration», «regrettable». Não faltou até – ignóbil insulto auto-infligido! – essa relíquia secular que é «cacophonie», que, com o seu «ph» (não alcalino), é parente distante das nossas «pharmacia» («pharmacie») e «physica» («physique»), «palavras-parasitas» que os nossos «gloriosos» revolucionários de 1910 não tardaram em exterminar.
Sim, o francês já foi a língua da cultura e da civilização. Agora… é a decadência! Lamentável! Pelo que só ficaria bem ao Dr. Seixas da Costa, ilustre elemento da vanguarda da classe operária… perdão, literária, instruir e iluminar os franceses na urgente tarefa e nobre causa de modernizar a sua língua, tornando-a, como a nossa, mais próxima da oralidade. Poderia até requisitar os serviços do Professor Malaca Casteleiro, que, não duvido, estaria disponível e motivado – por um preço adequado, claro – para viajar e para converter estes novos bárbaros. E, já que ele vai para Paris estudar… «philosophie», o anterior primeiro-ministro, Senhor Pinto de Sousa, decerto não recusaria dar a sua ajuda. Que trio! Obviamente que os gauleses, quais descendentes de Astérix, se ririam nas vossas caras e vos chamariam de loucos, mas isso não deveria ser motivo e pretexto para desanimarem e para desistirem!

Octávio dos Santos

Portugal quem te fez mal?

Sempre te vi Portugal como uma nação cheia de personalidade, talvez pela tua configuração, costas voltadas a Espanha, com um grande e proeminente nariz estampado apontar a Ocidente.

Um estóico País, de homens e mulheres que chorou e cantou os seus que domaram as vagas do Atlântico, mas que nunca desistiu ou pensou em desistir.

Uma Nação que sofreu a humilhação do Ultimato e que ainda assim, porque justo achou, enviou os seus mais preciosos filhos para combater naqueles escuros campos de França, ao lado de quem tanta vergonha a encheu.

Uma Nação de exploradores, que até foram exploradores, é verdade, mas que ainda assim contribuiu decididamente para a existência de uma Pátria mundial.

Foste a primeira Nação com bravura a abolir a escravatura e decididamente a única amar os territórios que de nascença não te eram pertença mas que de coração fizeste teus.

Foste também a primeira Pátria onde, nos Tribunais, se deixou de findar a justiça com recurso a sangue, quem sabe, porque foste documentalmente a primeira a voar.

Mas hoje, alegre Portugal, decididamente, deixas-te de ser uma Pátria pequena por fora e grande por dentro. És antes uma Pátria onde os grandes homens de outrora se encolheram, vergando-se ao oportunismo fácil e aos valores tácteis.

Preocupados com o grande enriquecimento dos seus pequenos lares, evocando aos seus pequenos filhotes, como é grande a devoção das suas oferendas vulgares para, distraindo-os, lhes fazer escapar o tempo não lhes podem dar.

Portugal, eles fazem-te mal mas não sabem, eles fazem-te mal, mas amam-te. Amam-te tanto que se com mil casinhas a rigor te enfeitam, com estradinhas em formas de colares sem fim te adornam. E acredita meu pequeno País, que fazem-no apenas para ti, certo já não sei se é por ti.

Hoje dizem, meu Portugal, que és lixo, lixo tóxico radioactivo, ainda mais sujo do que aquele que proficuamente jorra a jorros, tristemente no Japão.

Quando leio tal, apetece-me gritar: “às armas, às armas”, mas meu formoso Portugal, contra quem as vamos erguer? Se não sabes ao certo, se foi de longe ou de perto quem te fez mal?

E se não o sabes, não é por triste inocência, meu lindo Portugal, apenas não o sabes, porque infelizmente não sabes o que é ser pérfido!

Por isso, meu alegre e triste Portugal, com admiração contempla o presente infortúnio, de modo a que no futuro, tu ó Pátria Mãe, eduques melhor os teus filhos, para que um dia, consciência tenham, de quem te quer bem, para que saibam identificar, quem te quer mal.

Obrigado: A António de Macedo…

… Que celebra hoje, 5 de Julho de 2011, o seu 80º aniversário. Eu sou apenas uma entre muitas pessoas que têm muito a agradecer-lhe: no meu caso, nem mais nem menos do que o início – após muitos anos de tentativas – da minha carreira literária, pois foi ele quem propôs a publicação de «Visões». E o prefácio que ele escreveu para o meu primeiro livro ainda hoje pode servir de comprovativo para todos os que, eventualmente, ainda hoje, questionam o meu talento… incluindo eu próprio, em momentos de maior desalento.
Arquitecto de formação, mas mais conhecido enquanto homem do cinema e da televisão, António de Macedo dedicou ao grande e ao pequeno ecrãs três décadas de actividade intensa, durante a qual se afirmou também como um dos maiores «activistas» portugueses da ficção científica e do fantástico, numa filmografia em que se destacam títulos como «Os Abismos da Meia-Noite», «Os Emissários de Khalom» e «A Maldição de Marialva». Impossibilitado de continuar a sua carreira audiovisual, dedicou-se decididamente ao ensino… e à escrita, tanto em ficção como em não-ficção, tendo congregado à sua volta uma nova legião de admiradores, amigos e discípulos. Desde a fundação da Simetria, de que foi e é um dos grandes vultos, tornou-se presença assídua e interveniente em practicamente todos os grandes encontros nacionais de FC & F. Entretanto, tornou-se um eminente especialista em Esoterismo e em estudo de religiões, num percurso em que o ponto culminante foi o seu doutoramento, concluído em 2010, e de que resultou o seu mais recente livro, «Cristianismo Iniciático».
Curiosamente, no ano em que nasceu – 1931 – foram estreados vários filmes que viriam a tornar-se marcantes. Antes de mais, a grande «trilogia clássica» do terror: «Drácula», de Tod Browning, com Bela Lugosi; «Frankenstein», de James Whale, com Boris Karloff; «Dr. Jekyll and Mr. Hyde», de Rouben Mamoulian, com Fredric March. E ainda: «City Lights», de (e com) Charles Chaplin; «The Public Enemy», de William A. Wellman, com James Cagney; «Little Caesar», de Mervyn LeRoy, com Edward G. Robinson; «Monkey Business», de Norman Z. McLeod, com os irmãos Marx; «Platinum Blonde», de Frank Capra, com Jean Harlow; «M», de Fritz Lang; «À Nous la Liberté», de René Clair; «Tabu», de F. W. Murnau… Pode-se dizer que veio ao Mundo sob bons auspícios… cinematográficos, pelo menos! Parabéns, Mestre!

Octávio dos Santos

Marcado para morrer.

Não sei em que dia, a que horas, e espero nem sequer me aproximar de conhecer o momento do evento, se custa saber que em breve tal irá acontecer, muito mais custaria saber a data e a hora certa. Obrigado por isso carrasco!

Mas sei quem são os mandantes e até o que esperam provar com isso.

Até sei que podia fugir, mas espero também, tal como eles, que a minha morte me prove inequivocamente e aos outros, que certo estava a respeito deles.

Mas neste preciso momento sei que não o fazem, porque ao fazê-lo toda a gente saberia instantaneamente quem eram os mandantes, porque o tinham feito. Não é por isso decididamente não é o momento indicado para o fazerem.

Por saber isso gozo as minhas férias, e vou lendo coisas de gente morta, para que em breve saiba me integrar com eles!

Quando tal acontecer por favor, peço-vos que chorem desbragadamente pois, infelizmente a minha morte prova que a existência não está na nossa mão! Nem na vontade de Deus. Antes na vontade de uns quantos outros.

Textos seleccionados

«Amanhã será um dia novo?», António Borges de Cavalho; «Breve nota sobre Camões», David Soares; «A tristonha cerimónia», José António Barreiros; «Por muito que gostasse», Luís Filipe Silva; «O país dos chicos-espertos», Luís M. R. Sequeira; «Erguer o copo saudando o António Cabrita», Manuel Augusto Araújo; «Sair de onde jamais deveríamos ter entrado», Nuno Castelo-Branco; «A ortografia não vai a votos», Nuno Pacheco.

Ministério… não é fundamental

No passado dia 2 de Maio foi aberta uma petição contra a eventual extinção do Ministério da Cultura no governo de Portugal que resultar das eleições legislativas de 5 de Junho próximo. Que já foi subscrita, no momento em que escrevo, por mais de 1200 pessoas, algumas das quais eu conheço pessoalmente, estimo e admiro. E que, ao fazê-lo, me desiludiram bastante.
Eu não assinei nem vou assinar esta petição. Porque, objectivamente, na práctica, esta iniciativa é (mais) um instrumento de apoio a José Pinto de Sousa. Porque não é o PS mas sim o PSD que pondera a hipótese – admitida no seu programa eleitoral – de colocar a pasta da Cultura a cargo não de um ministro(a) mas sim de um(a) secretário(a) de Estado. Aliás, esta é uma situação com semelhanças à da RTP, cuja comissão de trabalhadores se insurgiu contra a proposta, também prevista pelo partido liderado por Pedro Passos Coelho, de privatização da estação pública – uma posição «laboral» que ilustra bem o conceito de «interesses instalados». E, que se saiba, a CT da RTP não protestou contra a imposição do AO na empresa…
A petição em causa foi lançada pela Sociedade Portuguesa de Autores, presidida por José Jorge Letria que é, desde há muito tempo, um fiel «compagnon de route» do Partido Socialista. E quem colocar nela a sua assinatura está a dar implicitamente – e inconscientemente? – a sua autorização para ser utilizado como mais um peão na luta do actual, mentiroso, irresponsável, incompetente, desavergonhado, autoritário, abusador primeiro ministro para se manter no poder. Para este «peditório» eu não dou. E apelo veementemente a que mais ninguém dê. Já agora, porque é que os proponentes e os signatários desta petição não lançam outra contra a utilização de serviços públicos – sim, do MC! – em propaganda partidária, não uma mas sim duas vezes? Ou porque não protestam contra o lamentável colaboracionismo de Gabriela Canavilhas no Acordo Ortográfico? Uma ministra que diz que a sua «despromoção» a secretária seria um «retrocesso civilizacional»… mas não a promoção da tauromaquia!
Não é, obviamente, e como se tem comprovado nos últimos anos, a existência de um ministério que resolve todos os problemas que afectam a área da cultura no nosso país. Tal só pode ser feito com a definição e a concretização efectivas de uma política cultural articulada, ambiciosa e abrangente sem deixar de ser realista. E que pode perfeitamente ser dirigida através de uma secretaria de Estado. Assim, não se atribua mais importância aos meios do que aos fins.
(Adenda de 2011/6/28 – Já completamente formado o novo governo, resultante de uma coligação entre o PSD e o CDS, confirma-se que a Cultura passa, de facto, a ser uma Secretaria de Estado – a cargo de Francisco José Viegas – e fica na dependência de… Pedro Passos Coelho. Exactamente: o ministro da Cultura é… o próprio primeiro-ministro! Será que os promotores e subscritores desta petição ainda pensam que houve uma «despromoção»?)

Octávio dos Santos

Foi há 25 anos…

… Isto é, a 5 de Maio de 1986, que aconteceu o acidente ferroviário na Póvoa de Santa Iria, um dos mais graves da história dos caminhos de ferro em Portugal. Dele resultaram 17 mortos e 83 feridos, na maioria jovens, estudantes, entre os quais amigos e conhecidos meus. Os que os conheciam mas que tiveram a sorte de não seguir naquele comboio também ficaram marcados para sempre.
Há cinco anos, aquando do vigésimo aniversário, recuperei o artigo «Não (n)os esqueceremos», que escrevi e publiquei no jornal Notícias de Alverca poucos dias depois da tragédia. Este ano, ao se atingir a marca de um quarto de século, decidi que as vítimas mereciam um memorial mais visível. Pelo que contactei Conceição Lino, minha antiga colega de escola, e que, tendo vivido muitos anos em Alverca do Ribatejo, conhecia vários dos acidentados e também acompanhou de perto o sucedido. Graças a ela foi produzida e divulgada hoje uma reportagem na SIC. E encontrei também evocações aqui e aqui.
De entre os que desapareceram naquele dia, um houve cuja perda me custou mais: Francisco Monteiro. Tínhamos a mesma idade, éramos amigos, fomos colegas de turma, partilhávamos a paixão pelo rock & roll, em especial o mais «duro» e «pesado». Recordo-o ao som do tema-título do seu disco favorito: «Back In Black», dos AC/DC… uma canção, ela própria, em honra de alguém que morreu.

Octávio dos Santos